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Parece a Toscana

Gabriel Magalhães

Às vezes recebo visitantes estrangeiros, que vêm espreitar estas solidões beirãs onde vivemos. E isso obriga-me a peregrinações pela Serra da Estrela, a devaneios de automóvel pela Cova da Beira, com paragens estratégicas em monumentos, panoramas e cidades. No verão passado, enquanto viajava paisagens entre Belmonte e Monsanto na companhia de um desses amigos, eis que o homem se sai com esta, olhando, deliciado, para os horizontes que fluíam nas janelas, no para-brisas do automóvel: “Parece a Toscana!”.

A Toscana? Considerei em silêncio as possibilidades de nos assemelharmos a uma região italiana que conta com Florença como a joia maior da sua coroa de ouro e esmeraldas. A Toscana? Mas, realmente, esta mistura de verdes e dourados, que enfeitiça os nossos campos, é tão bela como a dessa zona da Itália. Naquele dia, o sol dava, aliás, umas violentas pinceladas de cor e calor, que tudo tornavam mais vivo. Mais incendiado de si mesmo. Mais Toscana.

Então, por que motivo toda esta beleza que a região tem, e que é de paisagem e de monumentalidades, por que motivo, repito, está ela a milhas, a muitas milhas, de ser a Toscana, embora se lhe pareça? Em primeiro lugar, porque, como diz a minha querida esposa, muitas pessoas que cá vivem não acreditam na sua própria terra. Encolhem-se nela, numa resignação que a faz mirrar também.

Mas existe outro motivo: cada cidade destes sítios cristaliza em si mesma; como que constrói uma muralha à volta dos seus interesses, do seu rame-rame quotidiano, e não é possível, ou é muito difícil, criar uma ideia de região, que se transforme numa plataforma comunicativa capaz de lançar estas terras nas órbitas do turismo massivo contemporâneo. Somos uma série de cidades, cada uma delas muito pequena para hipnotizar grande quantidade de visitantes. Belas estrelas que, por não formarem uma constelação, ficam perdidas na via láctea, cheia de luzes, da atualidade.

Há já quase cinco anos que a UBI tem uma Licenciatura em Ciências da Cultura, à qual agora se veio somar um Mestrado em Estudos de Cultura. Entre as muitas questões que trabalhamos, esta é uma delas: como se poderia desenhar um mito turístico, um “conceito”, como hoje se diz, que fosse tudo para o quase nada desta região agonizante? Trabalhar na cultura pode ser algo sedutor. Pensem nos talentos que foram capazes de transformar os granitos escuros do Porto, as suas brumas e chuvinhas, num destino turístico internacional de grande êxito. Do nevoeiro se fez uma nuvem de encantamentos, que chove euros.

E, quanto a nós, seremos algum dia a Toscana? Bem sei que muitos, ao lerem o início deste artigo, terão pensado que o meu amigo estava apenas a ser simpático. Mas isto, precisamente, representa o modo de pensar que nos mata. Bem sei o quanto a nossa região se pode tornar complicada: um autêntico cerco de limitações que nos rodeia. Mas, por vezes, somos nós próprios que cortamos as pernas a nós mesmos e nos encurralamos onde, afinal, havia um caminho e havia um horizonte.