InícioOpiniãoO “país isolado” onde a dor tem hora marcada

O “país isolado” onde a dor tem hora marcada

Nuno Francisco

Vale a pena pousar a consciência nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa na sua declaração ao país, quando Portugal estava perante uma das suas maiores tragédias humanas. Vale a pena, porque terão escapado a muitos espíritos na voragem informativa que ocupou televisões, rádios e jornais: “Nesta hora há também interrogações e sentimentos que não podem deixar de nos angustiar, a começar por um sentimento de acrescida injustiça, porque a tragédia atingiu aqueles portugueses de quem menos se fala, de um país rural, isolado, com populações dispersas, mais idosas, mais difíceis de contactar, de proteger e de salvar”.

Dificilmente se poderia resumir melhor aquilo que incredulamente e impotentemente vimos: um inacreditável mar de chamas que reclamou dezenas de vidas, centenas de casas, milhares de hectares de floresta. Imagens que nos enchem de dor, porque insistimos no verbo de encher em vez de se tentar acabar com isto de uma vez por todas. Vidas destroçadas em segundos, desespero e lágrimas que não apagam chama alguma a não ser a de uma dor que nós nem sequer conhecemos por aproximação.

São estes homens e mulheres que vivem neste “país rural, isolado, disperso, idoso, difícil de contactar, de proteger e salvar” que voltam a estar no epicentro da tragédia. Em 2017 com consequências inauditas, mas já estiveram em 2016, 2015, 2014, 2013, 2012, 2011, 2010, 2009, 2008, 2007, 2006, 2005, 2004, 2003, 2002, 2001, 2000, 1999, 1998, 1997, 1996, 1995, 1994, 1993, 1992, 1991… E por aí fora quase até ao infinito da memória, dos verões que fustigam gentes e lugares. Ano após ano, plano após plano, relatório após relatório, estudo após estudo, compromisso após compromisso, conversa fiada após conversa fiada. Resultado: Milhões de hectares de floresta queimados, dezenas de vidas ceifadas.

Todos os verões há uma reposição deste cenário com amplitudes, consequências e geografias diferentes. Não há verão, por mais brando que seja, (e cada vez será menos) em que não sejamos invadidos por esta fatalidade com época marcada, complementada, já depois do mal feito, com milhares de opiniões sobre ordenamento florestal, limpeza das matas, sobre o para “o ano é que é”, sobre o disparate que terá sido o fim dos guardas florestais, sobre isto e sobre aquilo.

Um isto e ainda um mais aquilo que, tal como os fogos, está em reposição contínua, onde todos opinam, criticam e prometem, para voltar tudo a arder. Depois virá o cândido outono e o gélido inverno; os fogos sairão dos ecrãs das televisões e das páginas dos jornais. O “país rural, isolado, disperso, idoso, difícil de contactar, de proteger e salvar” volta ao anonimato. Ficam as famílias destroçadas em terra queimada. Até acordarem em nova dor no próximo verão.

Devemos – todos! – à memória das vítimas de Pedrógão Grande colocar um fim a isto.Doa a quem doer, doa a que interesses doer. Basta de inação e de diagnósticos inconsequentes. Este país que o Presidente da República tão bem descreveu num momento de profunda dor exige que a coragem dos bombeiros que enfrentam os mares de chamas seja exemplo para se tomarem ações decisivas e irreversíveis. Basta de dor com hora marcada. Basta de inércia. Por todos, basta!