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Os oceanos da oração

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Gabriel Magalhães

AS PALAVRAS são a espuma do oceano imenso da oração. Contudo, muitos crentes fazem delas o essencial – e vão carregando preces com os lábios de um lado para o outro, como se fossem tijolos pronunciados. Neste caso, rezar consiste em acarretar frases, fórmulas, que, por vezes, nos vão parecendo cada vez mais pesadas. Ora, quem ora tem de se sentir leve por dentro como uma gaivota de asas abertas ou uma andorinha de voos chilreados.

Nem sempre se consegue tal estado de leveza, mas esta é, sem dúvida, a viagem que deveríamos realizar quando, num recanto qualquer, fechando os olhos, ficamos interiormente do tamanho do cosmos. Quem reza liga-se à Internet do universo e são de uma beleza sem fim os “downloads” que, nessas alturas, podemos fazer. Orando, descarregamos no nosso íntimo estrelas, cometas, constelações de paz, de alegria, de confiança.

Aprendi tudo isto lendo Santa Teresa de Ávila, que era uma mulher atrevida, sempre a escrever livros perigosos porque traçavam a cartografia destas astronomias íntimas, privadas, onde somos livres. Depois encontrei órbitas de felicidade rezada no budismo, no hinduísmo, no islamismo, no judaísmo. E, por fim, dei-me conta de que elas cintilam também no grande rio de cada dia. Muitas pessoas, de facto, rezam sem disso terem bem consciência.

Porque quem vê uma obra de arte e se emociona está a orar, ainda que o não saiba. Quem ama outra pessoa reza por essa pessoa no e com o amor que lhe tem: os pais, sem darem por isso, rezam os seus filhos, e os filhos os pais; os esposos são uma oração um pelo outro, quando se abraçam e apoiam. Felizes daqueles que têm verdadeiros amigos porque cada um deles constitui uma preciosa iluminura no livro de horas da nossa vida.

A grande aventura da oração está hoje um pouco esquecida, e é pena. Entretemo-nos com os foguetórios do consumismo, a hipnose diária televisiva e essa janelinha do “tablet” através da qual espreitamos a vida dos outros, como as nossas avós faziam do janelo de sua cozinha. Assim, acabamos por adormecer cada noite sobre o colchão do nosso vazio.

E não pense o leitor que, se se entregar a uma prece, abandonou as suas convicções de esquerda, progressistas, ou o seu interesse pela ciência. Pelo contrário, a luta pela ansiada justiça social ficará mais abrangente, mais compreensiva. Uma revolução feita por pessoas que rezam as mudanças que desejam tende a deixar a sua marca no tempo; pelo contrário, as que se projetaram com base no mero egoísmo de classe diluem-se, desaparecem. Do mesmo modo a pesquisa científica, quando não constitui uma forma superior, plenamente livre e racional, de oração – muitas vezes não chega ao melhor de si própria, podendo reduzir-se ao carreirismo burocrático ou à simples ambição de poder e domínio. E é nessas alturas que a ciência nos leva à beira do abismo, inventando bombas atómicas. As preces não nos degradam: pelo contrário, são um espelho onde fica mais vivo, mais nítido tudo o que somos e o que é o mundo.