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Os deserdados

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Nuno Francisco

LÁ DIZ um velho e otimista chavão que se deve aprender com os erros. A piedosa intenção será, em última instância, de que ao disparate não se tente somar mais disparate, gerando um turbilhão de consequências incontroláveis e que a História regista amiúde, para nosso infortúnio. O velho chavão ainda nos tenta chamar a atenção para algo que será óbvio, mas, ao que parece, de difícil aplicação: não é por se insistir no mesmo erro vezes sem conta que iremos ter resultados diferentes.

A infeliz prova disto é o que se vai passando com a ascensão dos populismos em geografias que deviam estar amplamente vacinadas contra esta estirpe. Mas não. O nacionalismo, o discurso anti-imigração, o glorioso regresso às fronteiras físicas e monetárias, ao protecionismo, à recuperação de uma suposta independência são uma amálgama de cantos de sereia que se vão novamente escutando contra todos os males que nos afligem: desemprego, precariedade, o medo de tudo e de todos. O que vem depois não interessa, porque o que realmente importa é a eficácia do discurso, rude e rudimentar, contra o establishment que nos trouxe até aqui. A realidade é outra coisa – bem mais complexa – e não é para aqui chamada. O populismo tem sempre que encontrar bodes expiatórios óbvios que concentrem o ódio e as frustrações num processo de expiação coletiva.

Depois do Brexit e da eleição de Donald Trump – e enquanto aguardamos ansiosamente gloriosas notícias do regresso a um mundo simples e justo, a um mundo de muros sólidos e sem mácula onde não vingam a violência, o desemprego, as fraudes e a corrupção – a bancada mediática está montada em torno de umas eleições que podem ter como grande final a irreversível destruturação da União Europeia. Depois doReino Unido abandonar a UE, a senhora Le Pen, da Frente Nacional, já prometeu que, se vencer as presidenciais, irá levar a referendo a saída da França da União, bem como o regresso à moeda nacional, o Franco. Nada de novo: temos os “culpados” que é necessário identificar, vilipendiar, responsabilizar por todos os males e, depois, claro, aplicar medidas para nos afastarmos deles. Após isto, um admirável mundo novo deverá florescer algures. Nada disto é novo, infelizmente. O erro repete-se, novamente. E tudo é tão anacrónico, risível, caricatural…

A ascensão dos populismos é, mais uma vez, culpa coletiva por omissão e por insistência no erro. É um sintoma grave do estado do mundo, pois é o refúgio de milhões que se sentem excluídos do desenvolvimento económico, dos milhões que se sentem defraudados pelos políticos (?), dos milhões que não encontram a esperança de terem uma vida condigna. E essa legítima angústia é canalizada através desta escapatória. Sim, a culpa é de todos nós. O populismo emerge e fortalece-se nos terrenos áridos da ausência de respostas. Aquele que seria o principal concorrente da senhora Le Pen, François Fillon, acaba de ser envolvido, em França, num monumental escândalo. A mulher terá recebido perto de 900 mil euros durante os 15 anos em que foi assistente parlamentar do marido, quando este era deputado na Assembleia Nacional. É isto a repetição do erro. Não aprendemos nada. E depois surpreendem-se.