InícioOpiniãoOs “corta-fogos”

Os “corta-fogos”

Nuno Francisco

É comovente a onda de solidariedade nacional que se levantou em torno da tragédia de Pedrógão Grande. Mais uma vez ficou demonstrado empenho de um povo que se condoeu com a infelicidade de tantos dos seus compatriotas que foram colocados face a face com uma das maiores tragédias do Portugal contemporâneo. No meio de tudo o que foi feito, dito e escrito sobressai o retrato de um Portugal anónimo, vertido nos caminhos da solidão, fustigado pelos famosos dramas da “interioridade”.

Indefesos perante as contrariedades, indefesos perante a fúria do fogo que não poupou sequer aquilo que é mais precioso: a vida. Não vale a pena estar a contar novamente a história, nem entrar no jogo do arremesso de culpas. O que todos gostaríamos de ver era uma mudança drástica de atitude perante o ordenamento do território. Não apenas no que diz respeito ao ordenamento florestal – que parece ser uma evidência e será imperdoável voltar a cair nos mesmos erros – mas, sobretudo, no ordenamento humano do território.

A este propósito convém não deixar cair no esquecimento as declarações que o secretário de Estado do Desenvolvimento e da Coesão fez durante o 24.º Congresso da Associação Portuguesa de Desenvolvimento Regional, que decorreu na Covilhã na última semana.

Nelson Souza disse que a ocupação do território doInterior é o “melhor corta-fogo” que podemos ter. A declaração do secretário de Estado terá sido uma das mais certeiras que se fizeram a propósito do drama anual dos incêndios florestais que atormentam as regiões do Interior todos os verões, reduzindo milhares de hectares de floresta a cinza, ceifando vidas e destruindo o futuro a muitas comunidades.

Uma declaração feliz porque condensa todos os dramas de quem ainda resiste ao êxodo, tendo, tantas vezes, apenas como moeda de troca o crescente abandono e esquecimento por parte dos poderes distantes. Onde deveriam estar pessoas, reina o descuido, o desleixo, a desorganização, o esquecimento, o abandono e uma ilimitada fé em que as coisas não corram mal.

Nelson Souza disse ainda que “não tenhamos dúvidas que este objetivo de ocupar bem, de uma forma ordenada e de uma forma sustentável o território constitui, sem dúvida nenhuma, o melhor corta-fogos e a melhor prevenção para situações como a que vivemos e que assolaram tão violentamente a Região Centro”.

Poucas vezes uma declaração ilustrou tão bem a complexidade de um fenómeno que vivemos quotidianamente e que apesar de todos os alertas, continua a caber a outros fatores aquilo que deveria caber à ação decidida de homens e mulheres. O esvaziar demográfico do Interior não é sinónimo de cenários oníricos de paisagens verdejantes onde impera o silêncio.

Há uma outra face bem menos agradável que o secretário de Estado do Desenvolvimento e Coesão identificou. A verdade é que a desumanização do território tem muito pouco de maravilhoso. Há uma complexa teia de razões que alimenta este cenário e assim continuará até que alguém se sinta profundamente incomodado por ver que não podem ser a sorte, o acaso e o silêncio a tomarem conta de parte substancial de um país. É que as pessoas e a sua ação sempre foram as melhores soluções para tudo.