InícioOpiniãoO simpático Léo

O simpático Léo

Manuel da Silva Ramos

Sou um avô periférico e desajeitado. Estas férias, e durante quinze dias, passeei, por Lisboa e arredores, o meu neto Léo que veio de Toulouse, França. O que ele observou de Portugal através dos meus (seus) olhos é o tema desta crónica. Para já diga-se que ele tem um ano e dois meses, não anda nem fala, mas indica com um dedo curioso o mundo. É um dedo pequenino, cheio de verdade e clarividência. Esse dedo foi, durante algum tempo, um guia especial de Portugal.

Um avô quer-se paciente e de boa vontade. Eu, que só tenho paciência para a literatura, e claro, para os livros, ia enfrentar um desafio incomensurável. Mas eu tinha um trunfo na manga: ver o meu neto uma vez por ano enchia-me de uma coragem inaudita. E assim aconteceu pois Léo revelou-se ser um cachopo simpático senão estava tramado.

Como disse atrás, o dedo indicador do meu neto é a agulha magnética que indica o norte da vida. Neste caso, de Portugal. É vê-lo indicar as árvores que dão muita sombra da avenida da Liberdade. Frondosas! É vê-lo indicar os edifícios restaurados do Largo do Intendente. Belíssimos! É vê-lo indicar a quantidade de restaurantes indianos na rua do Benformoso e sorrir. Muitos e a visitar! É vê-lo indicar a quantidade de restaurantes kitsch entre a Casa dos Bicos e o Museu do Fado. De plástico e a evitar! É vê-lo indicar a fila infinita que se concentra no Largo do Martim Moniz para apanhar o eléctrico 28. Longa! E quando o passeio no Rossio, ao ver a quantidade enorme de turistas, ele aponta indiscriminadamente.

Sim, Léo, é a Babel de Verão! Não há nada a fazer! Agora é assim! A vida só espera por adultos! Tu, tu não tens lugar nesta capital! Claro, se tu sorrires, é diferente! E ei-lo já a arvorar o seu sorriso de galã à Delon. Parece que ouviu o meu pensamento. O que é extraordinário para um avô-condutor desencartado de poussette, é a grande disponibilidade e afecto que ele encontra à passagem do carrinho de bebé com um sorridente lá dentro.

Por exemplo, na Bobadela, o simpático Léo cativou muita gente. Pergunto-me agora que ele se foi embora: os que se debruçaram sobre o carrinho ou sobre a sua cara de Bebé Cadum ainda se lembram hoje dele? E será esta uma pergunta certa? A vida que é esquecimento pode ser lembrada por uma simples passagem súbita de um avô com um neto sorridente? Não acredito. Tudo passou, passa.

Daqui o interesse desta crónica que redime esse esquecimento fatal. Mas ficou em mim, dentro de mim, o grande carinho de alguns transeuntes. Por exemplo: esse senhor da minha idade, de cabelo muito preto e óculos grossos, que se debruçou sobre o carrinho e disse valente; aquela quadragenária bonita que no mercado da Bobadela olhava o meu Léo enquanto eu comprava figos, beringelas e outros legumes, e que se lançou num sorriso rasgado em direcção à sua cara maravilhosa de sedutor nato e que por fim rendida exclamou como é simpático!; simpático também o disse aquela senhora encontrada na pastelaria Torp quando eu comprava um pão de centeio, e que enquanto eu pagava se debruçou sorrindo sobre o pequerrucho e disse é giro e simpático!

E que dizer daqueles que tentando um gesto em direcção ao carrinho não puderam articular uma palavra porque eu passei demasiado rápido mas eu vi que eram solidários comigo. Agradeço também a esses condutores prudentes que nas passadeiras paravam os seus carros longe, a mais de cinco metros. Se fosse eu sozinho a atravessar, até me podiam trucidar, mas conduzindo um carrinho de bebé tive sempre um tratamento vip.

Esta experiência única ficará na minha memória. Mas também ficará na minha memória isto: este país não é feito para bebés em carrinhos ou velhos. Não há muitos acessos. Tudo é complicado, difícil, fatigante. Os elevadores muitas vezes não funcionam. No metro, existem poucos ascensores. Tudo é precário. Aliás, não se vêem em Lisboa muitos bebés em carrinhos.

Há pistas para ciclistas mas onde estão as pistas para puerpérios? Até parece que não há nascituros em Lisboa! Continuei a passear o Léo por Alfama, Bairro Alto e por fim ele adormeceu na Pensão Amor, não muito longe do bar exterior. Assim se fechou o seu sorriso cativante. Relembrei, enquanto degustava um Jameson com os seus pais, todos aqueles que passaram ao lado do carrinho que eu conduzi e que se estavam marimbando para o Léo e para mim! É natural! A vida é indiferença! O estado mais trágico da humanidade.

De todos as personagens que eu fui para fazer rir Léo, cito uma: essa espalhafatosa cantora de flamenco que sapateando tocava umas castanholas exuberantes. Aqui ele ria e pedia as castanholas para ele bater num turno bem a curto prazo. Baptizei o Léo de «rei dos dipsodes», porque ele comia como quatro, e em homenagem a Rabelais e a Pantagruel, sua grande invenção. Algumas vezes lhe dei de comer e até num restaurante chamado A Papinha e ele abria a boca e tudo desaparecia por aquele túnel à Mont Blanc.

E no final, ofereci-lhe o “Pantagruel”, numa edição de bolso, livre de poche, 1972. O seu primeiro livro! Tenho a certeza de que Léo vai ser um leitor sorridente. No Terminal 2 do aeroporto, antes de partir, disse-lhe adeus e ele desajeitadamente com os seus dedos pequenos fez-me um sinal tímido. Obrigado, Léo pelo teu sorriso e por estes dias plenos!