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O “bem comum”

Nuno Francisco

A VERTIGEM “obreira” é uma marca indelével que nos tem acompanhado ao longo de mais de quatro décadas de democracia. E com a justificação plena de estar assente na necessidade de recuperar um tempo que foi perdido, que nos foi sonegado. Portugal saiu da ditadura num estado lastimável em termos de equipamentos essenciais para o bem estar comum.

Do Portugal “pobre, mas honrado” que deixou milhões à mercê da vontade aleatória da sobrevivência em imensos cantos e recantos desta geografia. E quando falamos de equipamento de uso comum, não falamos de pavilhões gimnodesportivos ou de modernos multiúsos, nem tão-pouco de parques de estacionamento; falamos da ausência de redes de abastecimento de água ao domicílio, de redes de saneamento básico, de escolas, de vias rodoviárias asfaltadas ou mesmo de energia elétrica que não chegava a muitas aldeias. Sim, estávamos em 1974 e tudo isto existia num país europeu. Por isso, nunca será demais valorizar o decisivo papel do poder local nos últimos 40 anos para que hoje pudéssemos guardar no baú das memórias não gratas aquele país que ainda hoje muitos se lembram. Nós mudámos e a região mudou pela força deste trabalho de muitos e muitas autarcas competentes.

Mas a questão, hoje, na esmagadora maioria dos municípios da Beira Interior, reside – porque outra emergência está instalada – numa outra noção daquilo que é o bem público; uma noção mais imaterial e menos erguida à força das gruas que se elevam sobre as vilas e cidades. Em última análise podemos resumir a questão a isto: ter utilizadores para os equipamentos que mudaram a face de uma região e que nos conduziram para a modernidade.

Ou seja, criar condições para suster a quebra demográfica. Hoje, a definição de bem comum é sugerido, também, noutros pressupostos que não o tradicional barómetro da “obra feita”: Agora, há uma plena consciência de que a sobrevivência do território passa pelo controlo dos danos demográficos. Não é um tema que garanta votos em catadupa, não é um tema em que se goste de mergulhar profundamente, porque não há medidas de resultado imediato que se possam tomar para inverter o processo; não é um tema que permita inaugurações nem festas; e, muito menos, é uma questão que se resolva com a boa vontade de uma autarquia.

A crise demográfica não se resolverá amanhã, nem tão-pouco a tempo das próximas eleições autárquicas. Lidar com esta questão ampla, complexa, imaterial e, ainda por cima, não dependente de ações isoladas, não entra no domínio da campanha eleitoral precisamente porque não é visível (embora todos a sintamos), não é resolúvel por ação individual nem tem prazo definido para se começar a ver sinais que a contrariem. Apesar da “obra feita” continuar a ser importante na avaliação dos eleitores, muitas autarquias estão hoje empenhadas numa outra ação menos visível, mais insistente, muito mais complexa e, acreditamos, bem mais frustrante para os autarcas: tentar garantir a captação de empregos sustentados que permitam mitigar as graves quebras demográficas a que estamos a assistir. É um trabalho que não terá a visibilidade da inauguração de mais uma rotunda, mas será aquele que nos alimentará a ténue esperança no futuro do território.