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No salão da pós-verdade

Antonieta garcia

Antonieta Garcia

NA BÍBLIA, a Palavra foi o instrumento da Criação. Uma narrativa judaica explica que: “ Assim que Deus tomou a decisão de criar, as letras puseram-se em movimento; e, tal como vinte e duas princesas de qualquer cortejo real, avançaram uma após outra, em direção ao trono divino. (René de Tryon et alii, A cabala e a tradição judaica.)

Apresentaram-se numa ordem inversa à do alfabeto tal qual existe e invocaram as suas qualidades para obterem o benefício de serem protagonistas no bailado da Criação. Tau é a primeira letra a apresentar o pedido; lembra que finalizava a palavra verdade (em hebraico emet). Deus responde que está destinada a ficar na fronte dos homens fiéis (também na de Adão) que observam a Lei; é, porém, a letra que fecha a palavra morte (mavet, em hebraico)…

Tau retira-se. Seguem-se outras. Só Alef permaneceu no lugar, alegando que todos os grafemas se tinham manifestado inutilmente. Mais, havia sido reconhecido à letra Beth o dom da criação – Barukh (bendito seja Ele); logo, não seria favorecida nenhuma outra letra. Porque pensou, Alef tornar-se-á, por vontade divina, a primeira de todas, “…será a base de todos os cálculos e de todos os atos praticados no mundo. As outras, repelidas uma a uma, perceberam o seu lado negativo, porque Deus quis dar “…relevo à ideia da existência da dualidade como regra necessária no Universo”. (Elias Lipiner, As letras do alfabeto na criação do mundo.)

E foi a convicção na presença de um sentido oculto, divino, presente em cada elemento do alfabeto, na palavra, que explica o cuidado na preservação dos signos. Lê-se no Talmude:”…A supressão ou adição de uma letra pode levar à destruição do mundo inteiro”.

Ora, pressupondo que a formação do Cosmos se cumpriu a partir das letras, a origem do “mal” decorreria também da palavra. Um mito hebraico conta que Deus ditava a Tora, a Lei, e o escriba, num momento de distração, não colocou um acento; foi através desse erro, explicam, que o mal penetrou no mundo.

As letras juntaram-se, construíram palavras; inventam-se tantas, quantas as necessárias. E quando alguém diz “não tenho palavras para…” é uma meia verdade. Certo é, que desde Babel são maltratadas, perderam o poder e a transparência originais. Em demanda de sentido, dispuseram-nas de forma diferente, foram reinventadas, enredadas, cruzadas, crucificadas… Renovados jogos ilusionistas, malabarismos, habilidadezinhas colocaram-lhes fato e gravata ou violaram-nas sem qualquer pudor. Condenadas a opacidades e sombras, andam agora de boca em boca, e a enxurrada de sentidos subsidiários obriga a piruetas que desvairam e desatinam o entendimento.

É curioso o romance das palavras. Primeiro ditas, depois escritas, muito imaginou quem, não sabendo ler e escrever, quis comunicar. Ouviu, e à imagem e semelhança do que conhecia, da experiência, compôs outros vocábulos.

Popularmente vestir uma camisola “anterior” – coloca-se “antes” de qualquer outra – substitui com clareza a camisola “interior”; em linguagem médica, os cuidados intensivos tornaram-se “utensíveis”, por serem úteis; o euro é “oiro”, e as courgettes são “projetos” para o que der e vier… E daqui, não vem mal ao mundo. A modificação circula e, se faz sentido, é aceite, impõe-se. Adaptações inocentes servem a quem as usa… Estrangeirismos têm igualmente portas abertas e são de modas. O staff já se foi, o briefing conheceu melhores dias, o coffee break mantém-se de boa saúde.

Associaram-se o Live Cooking, os workshops, as startups, o chairman, o burnout… e mais o que se não diz por ser verdade! Também a composição de neologismos está à mão de cada um com maiores ou menores “conseguimentos”… Em busca de maior percetibilidade?

Mas, qualificar declarações objetivamente falsas como “factos alternativos” é assustador. Distorcido o sentido, a falsidade bem como a objetividade são conceitos irrelevantes?

Batizar a tortura que querem ver renovada como “Técnicas reforçadas de interrogatórios” adoça a brutalidade do pensamento e ato? Legislar sobre tratamentos degradantes e cruéis, em países que defendem os Direitos do Homem, é possível? Tu resistes, ele confessa, este aplaude, aquele agride, o outro regurgita ódio, insultam-se… e viva o grito?! Quem se entende?

O baile das palavras, ao som de Babel, no salão da pós-verdade é frenético, caótico, decadente. Os mandarins das palavras ressuscitaram? Será subestimar a inteligência e a multiculturalidade dos estadunidenses, admitir que velhacos incultos ainda podem chegar ao poder? O que se passa?

Uma estranha alquimia germina neste primeiro quartel do século. Com credos humanos em coma, gente poderosa pode, perversamente, tornar o mundo feio e muito injusto… Sobra-nos muito ou pouco, como entendermos… Afinal, o céu está cheio de estrelas.