InícioOpiniãoNo rescaldo da tragédia… O folclore político

No rescaldo da tragédia… O folclore político

Paulo Duarte

Tenho uma tendência para escrever sobre o que me surpreende, choca ou revolta e uma notícia, esta semana, teve esse dom. Refiro-me à decisão alucinada de transferir a sede da Unidade de Missão Para a Valorização do Interior (UMVI) para Pedrogão Grande. Na verdade, apenas mais um “fait diver” do jogo político, uma estratégia predatória, com o único objetivo de tentar colorir, artificialmente, uma paisagem enegrecida pelos corpos carbonizados de 64 pessoas, vítimas do jogo político.

Num processo onde as responsabilidades, se as houver, tardarão em encontrar um lar que as acolha, procura-se agora na natureza a vil causa para as consequências de décadas de incúria a vários níveis. Depois de se tentar imputar à trovoada, a fenómenos atmosféricos extremos, a problemas de coordenação e de comunicação (o mal-amado SIRESP) e a outras causas, todas sem rosto e inimputáveis civil ou criminalmente, vem agora o Governo responder com uma medida de folclore político, anunciando no Parlamento, com pompa e vigor, a transferência da UMVI para Pedrogão Grande, em jeito de compensação ou indeminização. Isto, quando pouco ou nada se sabe sobre o futuro de dita Unidade de Missão depois do (in)oportuno pedido de demissão da sua coordenadora, na sequência (ou não) da deportação para Pedrogão Grande.

Será que se espera que esta medida possa, de algum modo, aliviar a densa dor dos familiares e amigos das pessoas falecidas em condições tão horrendas ou tornar o futuro daquelas populações menos penoso? Mas no “jogo político”, como é comum ser descrita a ação política e governativa pelo ministro dos Negócios Estrangeiros nas suas intervenções públicas, tudo vale.

Mas vamos a factos e a questões. A verdade é que pouco ou nada se sabe sobre o futuro da UMVI e sobre a sua efetiva capacidade de ação. Criada em 2015, com sede na zona mais central e desfavorecida do interior (a cidade de Lisboa) e coordenada por uma professora (agora demissionária) de outra cidade, também ela bem localizada no interior (Coimbra); tem como missão criar, implementar e supervisionar um programa nacional para a coesão territorial, bem como promover medidas de desenvolvimento do território do interior de natureza interministerial. A esta UMVI pouco mais se lhe conhece do que várias reuniões com entidades regionais e a produção de um relatório (sim, mais um) onde são apontadas muitas medidas, talvez mesmo demasiadas.

E que dizer do seu conselho consultivo? Composto por um representante de cada ministro, um representante da Associação Nacional de Municípios Portugueses (presidida pelo presidente da câmara de Coimbra); Um representante da Associação Nacional de Freguesias (presidida presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique); um representante de cada uma das organizações sindicais e empresariais da Comissão Permanente de Concertação Social –  tudo entidades com ligação estreita e profundo conhecimento da realidade do interior – passará, também ele a reunir em Pedrogão Grande? Com que frequência?

Tenho para mim que a UMVI vai arder na fogueira das vaidades políticas, ateada por acendalhas de inveja e alimentada pelas toneladas de rancores e ódios que infestam os eucaliptais de políticos “prêt-à-porter” e cujos dirigentes nunca tiveram a coragem ou os meios para limpar.

Há uma lição a tirar disto tudo e esta podia até dar origem a uma sugestão, uma entre as mais de 150 medidas do relatório da UMVI. Enunciaria o seguinte: “Para o interior obter atenção e apoio efetivo por parte do poder central tem de ir a jogo e deixar abater sobre si (ou mesmo criar) catástrofes de dimensões épicas de forma contínua.”

Como diria um colossal estratega do jogo político: nos jogos políticos, tal como nas guerras, a grandes ganhos estão sempre associados grandes riscos e/ou avultadas perdas. Sim, porque para os políticos, a vida das populações é apenas um jogo. Um jogo onde eles ganham e as populações invariavelmente perdem. Só que no caso de Pedrogão Grande, para infelicidade das 64 pessoas que viram a vida literalmente esfumar-se, o jogo era real e como tal, para elas, não haverá um “Jogar Novamente”.

pduarte@gmail.com