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A minha amiga licorista

Manuel da Silva Ramos

JÁ NÃO via a Ana Marques Pereira desde os meus tempos do Liceu da Covilhã e foi com natural expectativa que fui visitá-la à sua casa na zona do Cais do Sodré. O Largo do Stephens é um larguinho com uma dezena de portas, não mais . Enquanto subia as largas escadas de madeira ia pensando como ouvira falar nela. O meu amigo Luís Athouguia, grande pintor surrealista que já expôs na Tinturaria da Covilhã, falou-me dela como sendo uma óptima licorista, e com livros publicados sobre os mais variados assuntos, e eis-me a bater-lhe à porta. Gosto sempre de ver um conterrâneo meu evidenciar-se, e quando é  no ramo da cultura então  vibro e deliro. Foi o que aconteceu com a Ana Marques Pereira.

Os anos passaram por nós e eis dois sexagenários a tentarem lembrar-se do que foi a Covilhã nesses anos de revolta e de inocência. Mas depois deste rápido episódio de lembrança gratificante, a casa-museu onde eu entrei reteve todo o meu espírito. Era impressionante. Por todo o lado havia bibelots, quadros, cerâmica artística, rendas antigas, um autêntico mas valioso bric-à- brac.

Mas o que me impressionou foi a quantidade de livros que a minha amiga tem, espalhados  por um longo corredor e duas grandes divisões. Perto de20 mil títulos, especialmente sobre História da Alimentação. Ela mostrou-me os seus inúmeros arquivos e a sua” ephemera “ (todo o género de documentos que as pessoas deitam fora como jornais, folhas de publicidade , rótulos, mata-borrões, etc, etc) e eu imediatamente disse-lhe que ela poderia fazer ao menos uma centena de livros com o  material que  possuía e coleccionara ao longo dos anos.

De entre estas maravilhas ,ela retirou da impressionante divisão cheia de livros e objectos heteróclitos mas todos belos, duas autênticas raridades: uma edição francesa de 1671 de Jacob Spon, intitulada “De l´usage du Café, du Thé et du Chocolat” e a terceira edição de 1693 do primeiro livro impresso de cozinha portuguesa “ A Arte da Cozinha “ de Domingos Rodrigues. Mas voltemos à vida da minha querida conterrânea.

Perguntei-lhe de onde vinha esta sua propensão para a cozinha , as suas receitas e a arte da mesa, e ela explicou-me que fora a mãe que lhe transmitira esse saber. E mais :com 14 ,15 anos ela ía ao edifício da Santa Zita , perto da  Escola Industrial Campos Melo, ter uma aula de culinária familiar com uma freira que no mesmo estabelecimento educava as criadas de servir. A Ana veio depois  para Lisboa estudar na Faculdade de Medicina, formou-se e tirou a especialidade de Hematologia Clínica.

Hoje está reformada depois de ter trabalhado no Hospital dos Capuchos e no Garcia da Horta, de Almada. Actualmente pode dedicar-se inteiramente à escrita, à investigação a à publicação de livros. Se fosse em França, a Ana Marques Pereira com o seu saber e os seus materiais que ela reuniu ao longo dos anos seria uma expert considerada e consagrada e teria facilidades em publicar.  Os editores naturalmente curiosos disputar-se-iam para a edição dos seus livros. Infelizmente, estamos em Portugal ,e há uma grande proporção de  editores  incultos e usurários.

A minha amiga ganhou notoriedade, entre a  gente ligada aos museus e nos especialistas com simpatias monárquicas, com “A Mesa Real”, um belíssimo álbum que explica os hábitos alimentares desde o período da Restauração até à 1ª República. E para gáudio dos intelectuais gastrónomos publicou o vocabulário gastronómico “Do Comer e do Falar…”, na Relógio D´Água em 2015. Falaremos destes livros e doutros da  autoria da nossa amiga Ana noutro artigo futuro mas por ora é importante referir  o  seu livro mais popular e destinado ao grande público e que se chama “Licores de Portugal-1880/1980”.

Este livro fundamental ,  para quem gosta de licores e especialmente da ginginha , é um estudo exaustivo sobre todos os licores que existiram em Portugal. A Ana Marques Pereira documentou-se muito bem e o seu saber enciclopédico sobrevoa  todo um século. O seu roteiro de ginginhas de Lisboa é indispensável e assinala os mais típicos estabelecimentos onde se consome a melhor ginginha( Ginginha Sem Rival na Rua Portas de Santo Antão, a Ginginha Espinheira no Largo de São Domingos e ,a minha preferida,  a Ginginha Rubi na Barros Queirós).

Ana Marques Pereira ensina-nos ainda neste livro que a ginginha requer para o seu desenvolvimento um clima frio, é por isso que se desenvolve com sucesso em certas zonas da Beira Interior, como a Cova da Beira. Eis uma obra que um amante de bebidas doces deve ter em casa. E todo o amador de ginginha que a queira beber ( com elas ou sem elas ) deve seguir o roteiro dos diversos estabelecimentos da capital,  realizado pela autora.

Com casa ainda na Covilhã (a casa dos seus pais está situada perto do Campo de Futebol, na Estrada para Floresta) a Ana Marques Pereira é um espírito fascinante e esperemos que o seu sonho se realize brevemente em Lisboa: a instalação de um Museu-Arquivo da História da Alimentação, e , claro, com objectos relacionados com esta arte. Quem não sonha , só pode ter ronha. Podia muito bem dizer o poeta da “Mensagem” , que bebia na rua Arco da Bandeira, n ´A Licorista.  Avante, Ana! Eu acredito.