InícioOpiniãoMaria Dias, a Negra de alcunha

Maria Dias, a Negra de alcunha

Maria Antonieta Garcia

Mulher de pele escurinha, como a alcunha celebra, nasceu no Fundão, na segunda metade do século XVI. Filha de Sisto Dias, almocreve e cristão velho, à mãe, Helena Rodrigues, identificavam-na como cristã-nova. Ora, atendendo às disposições sobre a percentagem de sangue indiciador de pertença judaica, Maria era qualificada como meia cristã-nova. Que complexas normas químicas sustentariam tais medições?! Certo é que as leis de Limpeza de Sangue criadas pela Inquisição impediam que os cristãos novos pudessem aceder a funções e cargos honrosos, reservados a cristãos-velhos.

Como sói acontecer nem sempre as leis foram cumpridas. Mas os cristãos novos, viviam num ambiente hostil. Maria, meia cristã-nova, sentiu-o. A 20 de julho de 1616, está nos cárceres do Santo Ofício. Havia “culpas” contra ela; fora denunciada. Por exemplo, o médico Domingos Álvares, observador exímio, dizia que era cousa muito pública em esta terra que geralmente toda a gente da nação (…) guarda os Sábados, vestindo e calçando diferentemente dos dias da semana. Celebravam festas da sua Lei judaica. Vestem-se de novo e de gala (…) Via isto no fim do mês de Setembro junto ao São Francisco, pouco mais ou menos .

O sangrador João Afonso Coelho corroborou a informação do clínico e acrescentou que às sextas-feiras, as casas estão alumiadas todas diferente dos outro dias.

Isto acontecia na morada de Francisco Morão, médico, e da mulher, na de Diogo Álvares, de António Fernandes, o Sete Cabeças, de alcunha, de Fernão Vaz Lucena, de Gaspar Lopes, o boticário, de Maria Dias…

Catarina Roiz, de Castelo Branco, moradora na Idanha, tinha vindo presa com ela para Lisboa; lembra-se do pedido que lhe fizera: não pusesse a boca nem culpas na mulher de Gaspar Lopes…, do Fundão.

A filha, Helena Roiz, 1/4 de cristã-nova, afirma que jejuara com a mãe e que se declararam ambas crentes na Lei de Moisés. Aires Nunes, regressado havia pouco tempo do Brasil, ouvira da boca de Maria Dias que ela jejuara para que Deus dos céus o trouxesse a salvamento… Confessaram depois serem seguidores da lei mosaica.
António Nunes, cristão-novo, boticário do Fundão, filho de Isabel Lopes, a Engasgada, de alcunha, era outro que judaizara com Maria Dias…

Somaram um rol de denúncias, os inquisidores. E agora Maria? Aflição, frustração e medo sobram. Na cela, vão espreitá-la de manhã à noitinha, sem que suspeite. São 4 os que policiam; 2 de cada vez; 4 olhos veem melhor. Começam a 25 de setembro. O alcaide dos cárceres, cerca das 11 horas, viu que Maria Dias lavou as mãos e pôs-se a passear pela casa cantando… O que cantava? Escrevem tanto, os Inquisidores! Por que não registaram os cantos? Tristes, como os de Cuidar e Suspirar? Ou Maria Dias preferiu fazer-de-conta que não havia motivos para receio e cantava?

O que veem os funcionários? Às 2ªs e 5ªs não come se não à noite. Prestam atenção a tudo e repararam que, às vezes, tomava umas contas (…) e fazia alguns meneios com a cabeça, mãos e corpo e não sabe se rezava…

Ah! Viram-na sentada na cama a catar as pulgas… Mas não se benzia ao levantar da cama. Só comia sendo o sol bem posto; numa fatia de pão, deitou um fio de azeite, comeu dois ovos assados, um cachinho de uvas. Rejeitou a carne, que os guardas lhe levavam, para cumprir o jejum judaico.

Aos 50 anos, Maria Dias põe a vida ao léu. Fora casada com um cristão velho, da Capinha, João Fernandes. Enviuvou e casou depois com Domingos Fernandes, cristão velho, de Almendra, de quem teve um filho: João Roiz, morador com a mulher, em Jaén, onde são tendeiros.

Ela fora batizada na Igreja de São Martinho do Fundão. Apadrinhou-a o Padre Alves, primo do pai. Interrogada sobre a doutrina católica soube as orações, mas disse mal os Mandamentos da lei de Deus e não soube mais da doutrina cristã.

E as culpas? Determinada, diz não ter que confessar. Uma vez e outra repete que não praticava a lei de Moisés. Usa de mau conselho, advertem os Inquisidores. Maria não fraqueja. Nauseiam tantos interrogatórios; tresandam a maldade e a hipocrisia. Mas são as palavras do Promotor do Santo Ofício, quando lê o libelo acusatório, que lhe gelam o coração. A ameaça de ser relaxada à justiça secular desespera-a. …
Confessará, então, práticas de Judaísmo, com muitos detidos, com outros que se ausentaram do reino… Tenta encobrir os mais próximos, mas as omissões são detetadas pelos Inquisidores. Da Casa do Tormento não se livra. Sobreviveria? Tem medo. Na sala… Despojam-na dos vestidos, sentam-na no escabelo defronte da polé, atam pés e mãos e braços lhe foram postos atrás e lhos ataram com correia e lhe começaram a dar voltas… ela gritando…

Querem mais confissão. Desatina, Maria Dias, ainda dorida. Que é da piedade? Torturam-na de novo, usando a mesma técnica. Maria Dias convenceu finalmente os algozes: não estava lembrada de mais. No Auto da Fé celebrado em Lisboa, na Ribeira, a 14 de fevereiro de 1617, ouve a sentença: é condenada a cárcere e hábito penitencial perpétuo, sem remissão. Os bens confiscados. Abjura dos heréticos erros. Em Novembro autorizam-na, a seu pedido, a cumprir a pena no Fundão. Por aqui andou com o sambenito, o hábito penitencial. (Foi esta Maria Dias, a Negra de alcunha, que deu o nome ao chão da Maria Negra, pertinho do Alcambar?)