InícioOpiniãoO mal dos outros vai ser o fim de todos

O mal dos outros vai ser o fim de todos

nuno-francisco

Nuno Francisco

NÃO deixa de ser absolutamente extraordinário que se continue a insistir no disparate de usar a demografia como arma de arremesso político. Insistimos em não aprender nada e continuar a navegar no mesmo erro básico: que esta poderosa dinâmica que nos fustiga se pode conter nas fronteiras de um concelho enquanto tudo ao lado se desmorona.

A teoria do oásis demográfico é uma falácia monumental em que esperamos que ninguém esteja disposto a acreditar com convicção. Depois há ainda a estupenda visão do mal menor: esperar que o vizinho esteja pior que nós para podermos, de alguma forma, salvar a face, porque enquanto alguém estiver em situação mais precária, os focos não incidem com tanta intensidade sobre o nosso caso. E assim se vão vivendo os dias da crise demográfica que incide com violenta intensidade nestas nossas geografias quotidianas.

Os dados mais recentes do recenseamento eleitoral publicados em Diário da República no dia 1 de março, servem de (mais um!) aviso adicional à sangria demográfica a que a região está sujeita. Mas avisados já estávamos… E há muito. Só ainda não percebeu o que se está a passar quem não quer. Ou, porque, talvez, ainda há quem julgue que o problema de fundo se resolve com a brilhante estratégia do cada um por si.

A região continua a perder população a um ritmo preocupante, mas continua a entender-se que um município, por si, pode tratar do assunto dentro de portas e passar imune ao que se passa no resto do território. Salvo qualquer fenómeno de absoluta exceção que possa contrariar esta evidente regra sabemos que a realidade não começa nem acaba nas fronteiras do nosso concelho.

A questão demográfica já nos deveria ter ensinado, pelo menos, uma simples lição: Sozinhos não resolvemos coisíssima nenhuma. Era isto que nos devia preocupar profundamente e não fazer um ranking dos concelhos com mais ou menos perdas demográficas e olhá-lo com comiseração para com quem perdeu mais de dez por cento dos eleitores em apenas quatro anos.

Enquanto olhamos para as perdas deveria refletir-se sobre algo bem mais vinculativo do que a mera contemplação. Pouco importa se quem perdeu mais eleitores foi CasteloBranco, Belmonte, Covilhã, Fundão, Idanha-a-Nova, Oleiros, Penamacor, Proença-a-Nova, Sertã, Vila de Rei, Vila Velha de Ródão, Guarda, Manteigas, Meda, Trancoso, Pinhel ou qualquer outro município da região.

Estes e outros números já deveriam ter feito soar há muito os alarmes na região e juntado todos num mesmo fórum, mesmo que informal, que escape às lógicas concelhias e das comunidades intermunicipais, por onde a Beira Interior anda espalhada qual manta de retalhos, para se delinearem estratégias e caminhos comuns para tentar mitigar uma dinâmica que fustiga todo o território, do Douro ao Tejo.

A realidade que nos fustiga não conhece limites. E mesmo em ano de eleições autárquicas, onde as atenções estarão naturalmente centradas no prestar de contas dentro das fronteiras dos concelhos e das freguesias, que se ganhe de uma vez por todas a consciência de que o mal dos outros também é o nosso e que um dia ele poderá ser o fim de todos nós. Se se interiorizar isto, o resto virá por acréscimo.