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Lugares de silêncio e coragem

Nuno Francisco

A SOLIDÃO é o grande tormento que vagueia por estas ruas. São lugares caiados a ausência, a sentimento de perda que se carrega sobre as vestes enegrecidas. Elas próprias são silêncio de passo curto e pesado, desfilando por entre o empedrado. É o eco sem mais, sem outro retorno que não o do passo sincopado, da bengala a bater na calçada no amparo de um peso de um mundo que se guarda em recato no coração. Porque é de profundos silêncios que falamos. E também de omissão. E de esquecimento. Em tantas ruas de tantas aldeias desta Beira é a solidão que acompanha estas mulheres e homens que nos dão “a salvação”, neste “boa tarde” que nos interpela.

Estes são lugares fundamentais onde podemos ler, com clareza, a nossa realidade coletiva: as terras que sofreram o grande e continuado embate do despovoamento, que levou milhares de homens e mulheres para longe das raízes porque daquele horizonte apenas despontavam uma reiterada ameaça de pobreza endémica e o perpétuo desafio de um tenaz quotidiano onde cada hora era de sobrevivência, de dureza até onde a vista alcançava. Tantas realidades sem uma vaga esperança de dias gratos e de outras vistas que não aquelas que terminavam no fundo da minas da Panasqueira ou no final do cabo de uma enxada.

Era a sobrevivência arrancada ao ventre da terra por gente de coragem (muitos de nós, hoje, nem imaginamos quanta!); a mesma sobrevivência a prazo que acabaria por os impelir para longe, porque mesmo esta não dava para todos. Sinas de um Portugal longínquo onde ainda alguns querem encontrar outras virtudes para além daquelas que fizeram destes homens e mulheres exemplos de resistência, obstinação e de um profundo crer.

Não nos esqueçamos de que esta realidade, hoje entregue ao silêncio, foi forjada por gente que fez do seu quotidiano um imenso palco de luta contra a escassez, que fizeram tudo isto com caráter e coragem, que nos legaram valores, sentires e tradições extraordinárias. E só gente extraordinária deixa legado perpétuo. E isso devemo-lo apenas aos que ergueram estes lugares contra todas as expectativas, tantas vezes contra a própria natureza, contra a desesperança e contra a escassez que uivava de todos os pontos cardeais.

Uma viagem por tantas aldeias desta Beira remete-nos precisamente para este quadro, para a memória presente em lugares preenchidos de silêncio. Bem para além do preconceito idiota que uns tantos ainda alimentam contra as aldeias (por si só, um sublime sinal de idiotice), justifica-se, hoje, uma homenagem a quem trata, preserva e promove este património que tantos nos legaram e felizmente, em alguns casos, ainda nos continuam a legar, para fascínio nosso.

O trabalho feito por muitas autarquias pela preservação destas memórias materiais e imateriais, bem como os exemplos extraordinários levados a cabo, na região, pelas redes das Aldeias Históricas e Aldeias do Xisto merecem um amplo realce. É sempre com renovado espanto que visitamos estes lugares genuínos, em permanente crescendo de interesse por parte dos turistas. Mas o mais importante talvez seja o facto de que finalmente estamos a olhar em volta e a começar a aperceber-nos de que a grandiosidade também pode descender da vontade e da coragem dos humildes.