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O lítio de que não queremos falar

José Páscoa

O governo decidiu criar um grupo de trabalho para estudar o potencial de exploração do lítio em Portugal. Criado em dezembro de 2016, este grupo de trabalho apresentou recentemente as conclusões do seu estudo. E estas são bastante pragmáticas.

É proposta a criação de um programa de fomento mineiro, com a criação de novas explorações, para testar a tecnologia e demonstrar o potencial industrial deste metal. O grupo de trabalho propõe ainda a implementação de duas novas unidades industriais.

A primeira estaria focada no desenvolvimento experimental da cadeia de valor e a segunda seria uma unidade piloto de transformação industrial. Para ambas as unidades industriais já estão identificados o Portugal 2020 e os fundos europeus como fonte de financiamento. Durante os próximos meses haverá decisões quanto ao local onde ficarão implantadas as novas unidades industriais. Não se trata aqui de minas mas sim de unidades de processamento industrial.

O lítio é um material imprescindível para as baterias dos motores de automóvel híbridos. Com o crescimento do mercado dos veículos elétricos a procura deste material será cada vez maior. Nos países do sul da europa continuamos a levantar vozes contra a exploração mineira, Portugal não é exceção. Assim, as empresas optam por fazer a exploração nos países mais pobres. Não nos importamos em usar baterias de lítio desde que este seja extraído, sem controlo, noutros continentes. Não nos importamos com termos montado milhares de geradores eólicos pelo país, desde que os 10kg de neodímio para cada um sejam extraídos na China sem controlo.

Enfiar a cabeça na areia e recusar explorar os recursos minerais do nosso país é um erro económico e um crime moral. É um erro económico porque estas explorações permitiriam potenciar o desenvolvimento das regiões onde se inserem. E é um crime moral porque todos usamos telemóveis, e dezenas de outros aparelhos eletrónicos, sem preocupação pelo modo como os materiais são extraídos de forma descontrolada noutros continentes.

Se optássemos por analisar racionalmente as possibilidades de exploração mineira, impondo condições de proteção ambiental às empresas, estaríamos a ser mais coerentes e menos egoístas. Hoje, apenas na Europa há condições para impor às empresas mineiras as restrições ambientais que tanto prezamos. Ninguém impõe isso a empresas que, no meio de africa, exploram crianças de 6 anos na extração de lítio a céu aberto com as suas próprias mãos.

Enquanto nos passeamos com os nossos telemóveis reluzentes há cerca de 40 mil crianças a trabalhar 20 horas para ganharem 1.5 euros por dia. Fazem-no para não morrerem de fome, mas com a falta de condições de proteção a sua esperança de vida é diminuta.

Em países que tantas vezes invejamos, no norte da europa a exploração mineira nunca parou e continua pujante e a dinamizar a economia. Esta indústria opera sob rigoroso controlo para proteger o ambiente e os seres humanos. Além disso alavanca a economia. Nesses países os recursos minerais extraídos das minas não são vendidos em bruto para fora do país, mas sim explorados em toda a sua cadeia de valor. Há empresas transformadoras que empregam muito mais pessoas do que as próprias minas. Em Portugal o governo também prevê, além das minas, a criação de empresas industriais para explorar a cadeia de valor do lítio.

Enredados nas discussões habituais veremos essas empresas a serem colocadas em outros pontos do país e, no fim, apenas nos restará contribuir com as jazidas que cá temos para as alimentar. É este o lítio de que não queremos falar?