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O inferno das nações

Gabriel Magalhães

SE OLHARMOS para o mapa da Europa hoje em dia, nele vemos o regresso, a todo o galope, do inferno das nações. E digo “inferno” porque cada país do nosso continente carrega na sua história um pesado fardo de graves pecados. Pensem na Alemanha, no nazismo, nos campos de concentração. Pensem nesse duo tipo Dr. Jekyll e Mr. Hyde que carateriza a França e que deu o heroísmo de De Gaulle, mas também o colaboracionismo criminoso de Vichy, que deu a “liberdade, igualdade e fraternidade” de 1789, mas também as sessões intensivas de guilhotina, com o povo a ver rolar cabeças com o entusiasmo de quem observa bolas a entrar nas balizas de um desafio de futebol.

Não há país nenhum da Europa que tenha as mãos limpas. Nem sequer a Suíça, cujos bancos armazenam, em forma de ouro, as podridões financeiras de meio mundo. E este Portugal que parece tão bonzinho, tão inofensivo também tem as suas culpas no cartório: sabiam que uma das principais fontes de rendimento durante os tempos do império foi o tráfego de escravos, feito por compatriotas nossos da altura? Os números são esmagadores: entre três e seis milhões de pessoas foram levados do continente africano para o americano por simpáticos negreiros portugueses.

Creio que convém recordar estas coisas numa altura em que parte da cidadania europeia deseja blindar as suas fronteiras originais. Isso pode muito bem ser voltar às barbaridades de um outrora que parecem ter esquecido. Lembram-se daquelas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, onde morreram milhões de pessoas? Aquilo fabricou-se com a matéria-prima de muitos nacionalismos. E considerem ainda que a União Europeia, com todas as suas imperfeições, constitui um espaço de diálogo aberto, de convívio entre culturas: em suma, a Europa representa ainda hoje uma oportunidade de sermos melhores.

Nos outros países do nosso continente, este nacionalismo rançoso identifica-se bem pois veste as roupagens da extrema-direita. É fácil não gostar dele. Mas, no nosso país, ele é também de esquerda – e parece mais simpático. A revolução republicana de 1910 inventou um conceito de pátria muito forte. A fidelidade a essa instância substituía a lealdade ao rei. Depois, Salazar tentou articular esse nacionalismo com a tradição conservadora: um casamento de conveniência, muito à maneira manhosa do ditador. Com o 25 de abril, o sentimento nacional voltou a ficar tingido de bandeiras vermelhas. Devo dizer que não imagino outro caminho para Portugal que não seja a República e que amo a Revolução dos Cravos.

Mas atenção: quando o nacionalismo que se esconde nessa maré rubra vem à tona e propõe um país fechado em si mesmo, o velho Portugal dos pequeninos salazarista, mas agora controlado por uma burocracia de funcionários do Estado – isso já é diferente. Gosto muito de Portugal, mas ser-me-ia difícil suportá-lo fora da Europa, fechado nas suas aldeias, entretido com as intrigas das suas cidades, reduzido a uma certa mediocridade de si mesmo. Esse não é, creio, o melhor caminho.