InícioOpiniãoIncêndios e eleições: coincidência ou terrorismo?

Incêndios e eleições: coincidência ou terrorismo?

Paulo Duarte

NA SEQUÊNCIA dos primeiros dias negros dos incêndios de agosto, comentei que tinha sido um erro marcar a data das eleições autárquicas tão próximo e imediatamente após a época estival, já por si propícia a fogos. Tal juízo valeu-me algumas desaprovações verbais acompanhadas por expressões faciais saltitando entre a admiração e o descrédito.

Firme na convicção da minha intuição e do raciocínio subjacente às palavras fui pesquisar o número de incêndios ao longo dos últimos anos e cruzar essa informação com os anos em que ocorreram atos eleitorais. Recuei até 200, ano em que houve uma quebra na série estatística dos dados referentes aos incêndios florestais. Socorrendo-me dos dados da PORDATA e do ICNF para os dados referentes ao número de fogos e do Ministério da Administração Interna e da CNE para os dados eleitorais, deitei mãos à obra. Desse trabalho resultou o gráfico apresentado.

A observação instantânea do gráfico indica que o número de incêndios apresenta uma tendência decrescente ao longo do período em análise (2001-2017). Obviamente esta é uma boa notícia. Resta indagar sobre as razões desta diminuição contínua, pois tanto pode resultar de um aumento do cuidado e da consciência das pessoas, como pode igualmente resultar de outras causas, nomeadamente do facto de haver agora menos pontos com interesse para queimar, pois muitos arderam já ao longo dos últimos anos e todos sabemos o tempo que é necessário para repor na plenitude uma floresta.

No que toca à relação entre o número de incêndios e a ocorrência de atos eleitorais, a observação do gráfico sugere haver algum tipo de associação entre os dois factos. Considerando que as barras a azul indicam o número de fogos em anos sem qualquer ato eleitoral, as pintadas a vermelho (2001, 2013 e 2017) correspondem a anos em que ocorreram eleições autárquicas, as verdes (2002, 2011 e 2015) aos anos das eleições legislativas e as barras com dupla cor (2005 e 2009) indicam o número de fogos em anos com duplo ato eleitoral (autárquico e legislativo), facilmente concluímos que:

1) Nos anos em que houve eleições o número de incêndios é sempre superior aos anos imediatamente anterior e seguinte, com exceção para 2013;

2) Nos anos em que ocorreu duplo ato eleitoral o número de incêndios registados é superior à generalidade dos anos em análise.

Depois de ler nas redes sociais muitos comentários, acusações, prescrições e até soluções milagrosas para o combate aos incêndios (em particular por quem nunca esteve numa frente de fogo), normalmente visando os meios de combate, a organização ou o objeto em si – a floresta, a sua desordenação e a falta de limpeza – julgo que esquecem o principal problema: as ignições. Uma análise ao instante dos dados base sobre os eventos podia gerar informação muito útil para a prevenção pró-ativa dos fogos. Por exemplo, examinem-se ao momento os casos em que foram registadas ocorrências sucessivas na mesma freguesia e/ou local e talvez se perceba como tornar a vigilância muito mais eficaz.

Quero acreditar que a relação revelada pela mera observação da representação gráfica dos dados não passa de uma coincidência e um infeliz acaso sem significado, o que normalmente se designa por um falso positivo, mas caso não o seja, podemos estar perante um caso muito grave, o qual me atrevo a classificar como terrorismo. Valeria a pena investigar. Ou talvez não, tudo depende da conveniência.

pduarte@gmail.com