Imaginem

Nuno Francisco

1 – IMAGINEM um lugar onde o verbo”subtrair” se conjugou demasiado tempo sem reservas. Imaginem que esse território é vítima intemporal de um processo de esvaziamento, arrastando consigo pessoas, conhecimento, serviços e esperança. Que novidade nos poderia ser dada quando nos informam que esse lugar irá perder umas quantas agências do banco estatal? O desassossego já não é motivado, há muito, por essa melancólica repetição; a inquietação que ainda perpassa alguns espíritos é a de que, de anúncio em anúncio, chegará o dia em que se olhará em volta e se constatará que apenas restamos nós, habitantes escassos e vencidos desse lugar… e das circunstâncias. De resto, o desassossego e a desesperança vão convivendo lado a lado, enquanto se erguem esparsas vozes contra aquilo que já há muito se determinou em algumas mentes: estes lugares distantes e sossegados, entregues às suas inevitabilidades, não têm voz para se fazer ouvir, aquela voz distinta e firme que só uma multidão alcança, uma multidão que, olhando bem para este lugar, é de difícil reunião. Assim, de cada quintal e quintalinho cada um grita o que quer, que com alguma sorte, a mensagem chegará ao fim da rua e, quem sabe, de lá será devolvida em forma de eco.

Imaginemos, pois, que até se diz que a maior parte das agências a encerrar neste processo de reestruturação do banco público são na área da Grande Lisboa. Pois, sim. Primeiro: ao contrário do que alguns pensarão, o mal dos outros não é paliativo para ninguém. E, depois, há uma grande questão, aquela que é, realmente, a fundamental:nestes tais lugares da escassez, acabar com o pouco é conduzir-nos irremediavelmente para o nada. É essa a diferença fundamental entre retirar por entre a abundância e subtrair por entre a escassez. Há quem diga sabiamente, nestes lugares distantes, que o pouco faz sempre falta a quem desse pouco apenas dispõe, porque a alternativa expectável é o vazio. É a ordem natural das coisas, diz-se por cá. E bem! Daí este apego àquilo a que muitos acharão ninharias: Pessoas a protestar à porta de agências bancárias das vilas, petições e outras indignações não são ecos de coisas de somenos que vão chegado à sede das grandes instituições. São algo de muito mais substancial: É a diferença fundamental entre o ter e o não ter. E esta é uma frágil distância que não se pode percorrer. É que quando falamos em contexto de escassez, a mudança de estado do pouco para o do nada é imediata. Falamos de um profundo receio nosso.Sem necessidade de mais imaginação.

2 – Depois de décadas entregue ao jugo da ruína, conseguir devolver o Cineteatro Gardunha ao Fundão é algo que merece o aplauso coletivo dos fundanenses, saturados de falsos desígnios e de omissões mais ou menos veladas para com um dos espaços mais queridos da cidade. Tal como também merece um aplauso o envolvimento dos fundanenses na discussão em torno do futuro do edifício, como ficou demonstrado no debate público que decorreu na última semana no Casino Fundanense. E se o Cineteatro Gardunha voltar a ser um espaço de partilha cultural e cívica no coração da cidade, nada melhor do que começar este processo por quem lhe dará a alma e o propósito nesta segunda vida: os cidadãos.