InícioOpiniãoHá vida para além do preconceito

Há vida para além do preconceito

Nuno Francisco

HÁ IMAGENS que se colam como se de uma segunda pele se tratasse. São um derivado requintado do preconceito, de um paternalismo a puxar pela comiseração. De quando em vez, o “Interior”sobe à primeira linha do debate nacional, altura em que se lançam debates e análises sobre o estado arte que se desenrola naqueles territórios cujas fronteiras estarão colocadas a cerca de cem quilómetros da linha de costa.

Não é negativo que o Interior ganhe escala nestas coisas das preocupações. É sempre bom ver a atenção de um país centrada em questões que são de real importância para o território, onde o grosso da população continua a acumular-se em escassos quilómetros, enquanto que dois terços do país vive numa espécie de realidade paralela.

Depois vem o elenco tradicional do filme sobre o Interior: são poucos, são velhos e ainda a viver numa economia de subsistência, penando numa terra de quase ninguém. A seguir, lá vêm as imagens ilustrativas: idosos de bengala a subir e a descer pesarosamente as ruas semidesertas das aldeias, o inefável gato num balcão a gozar uma cálida tarde, o inevitável trabalho agrícola, com ou sem junta de bois a lavrar a terra, e outras coisas bucólicas que ficam sempre bem nestes quadros do Interior.

Estas são imagens que se vão repetindo e que fazem parte do imaginário arreigado da distante província, das terras dos avós e dos bisavós que se iam visitar nas “férias grandes” e no Natal. E também revelam uma outra coisa: um absoluto desconhecimento do que se passa.

Muito dos preconceitos sobre o Interior começam por um erro crasso: a eterna visão da total ruralização do território, assente em pequenas comunidades (as aldeias), onde os que resistem ainda aplicam as energias num duro processo de sobrevivência retirado da pequena horta e da pequena produção. Não há vilas, não há cidades, não há jovens, não há génio criativo, não há arrojo, não há vontade de triunfar, não há projetos e iniciativas de exceção, não há sonho, não há empresas de elevadíssima competitividade, não há universidades, não há politécnicos.

Não há nada disso. Só uma eterna e pesada sobrevivência. Haverá, também, porventura, ainda para muitos, aquela outra realidade mostrada pelo filtro dos programas “de entretenimento” feitos a partir “do Interior” que percorrem várias horas das grelhas televisivas, que ajudam a mostrar, com aquela reconhecida qualidade musical em cima do palco a debitar pobres rimas, quadros do Interior.

Pois bem, há algo aqui que não está em sintonia, porque perante tudo isto, o que devemos dizer àqueles e àquelas que fazem projetos agrícolas de primeira linha, aos empresários que investem, produzem e exportam produtos únicos e de altíssima qualidade para todos os cantos do mundo? E aos milhares de licenciados, mestrados e doutorados que apostaram nas instituições de ensino da região para adquirirem as suas competências?

O que se dirá aos promotores dos extraordinários projetos de turismo que se estão a alavancar por este território? Nestes dias doCarnaval, a região foi invadida por milhares visitantes. Da Estrela à Gardunha, das Aldeias Históricas às Aldeias doXisto, cremos que muitos ter-se-ão apercebido que, por aqui, ainda há vida para além do preconceito. Apesar de tudo.