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Gente nobre, filhos da Gardunha

Nuno Francisco

ANTES de mais peço desculpa aos leitores do Jornal do Fundão por estas linhas escritas na primeira pessoa e à flor da pele. Escrevo estas linhas sobre as ruínas de um outro editorial que já estava escrito. Estou a desfazê-lo, e a refazê-lo após uma noite praticamente sem dormir, depois de ter tentado evitar que as chamas levassem o trabalho de muitos anos de familiares.

Vi e vivi, como milhares de pessoas da Gardunha, horas de pesadelo. Mas deixem-me dizer-vos uma coisa, esta, sim, verdadeiramente notável: Vi, como raramente terei visto tanta gente brava, honrada, solidária e nobre. Gente da Gardunha a lutar pela sua Gardunha. Gente que chegava para ajudar os valorosos bombeiros em trabalho contínuo. Vi os bombeiros a darem o melhor de si, perante o monstro do fogo que atacava por todos os lados. E, depois, vi gente que lutava pelos seus próprios meios.

ncansavelmente, sem dormir, sem comer, a acudir ao que é seu e acudir ao que é dos outros, a acudir ao que é de todos: ao nosso coração; à nossa Gardunha. Não é hoje nem aqui que se pedirão responsabilidades nem se medirão consequências. O tempo é ainda de controlar os danos deste horrível incêndio que cercou aldeias e vilas desta nossa região, que feriu, que levou bens, que levou património, que nos feriu. O tempo chegará e podem ter a certeza que o Jornal do Fundão estará firmemente na linha da frente de um processo que tem que se reiniciar, de voltar a fazer da Gardunha o nosso coração. E para que isto nunca mais volte a acontecer. Basta! Para que nem nós nem os nossos filhos tenham que voltar a assistir a esta ignomínia.

O nosso coração, a nossa Gardunha é certo, está ferida, mas não está ferida de morte. Eu vi, como muitos dos leitores do JF terão visto, os filhos e as filhas da Gardunha a zelar por ela até à exaustão, até ao limite das capacidades humanas, indo buscar forças onde se julgava ser impossível obter mais uma gota de suor. No meio do caos e do pesadelo, tive a certeza que a Gardunha irá renascer, e que continuará orgulhosa de tão valorosa gente que a ama. De tão nobre e solidária gente que vi a correr pelas encostas com enxadas, baldes, pás, conduzindo tratores, e quando não tinham utensílios utilizavam os pés para apagar o fogo. Da nobre gente que se solidarizou com os bombeiros, fornecendo-lhes mantimentos e demais ajuda. Gente nobre esta que não pensava em cuidar apenas do que é seu, mas que se preocupa com o que é de todos.

Deste ciclo de destruição em curso ficam as sombrias paisagens que o fogo deixou para nos recordar durante muitos anos mais um verão dramático. Mas é esta gente que faz a Gardunha. É esta gente que foi feita pela Gardunha. É esta gente que ama a Gardunha e será com ela que a Gardunha renascerá. É com vocês. Tenho a certeza disso. Temos a certeza disso. Coragem, gente nobre da Gardunha.