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Fundão, a capital das tecnologias

José Páscoa

O IGNITE Your Future resultou de uma parceria de sucesso entre a Universidade da Beira Interior, a Câmara Municipal do Fundão, e a Altran. Durante três dias 150 jovens de todo o país, entre o 9º e 12º ano de escolaridade, fizeram do Fundão a capital nacional das novas tecnologias.

Importa dar nota que o impacto desta iniciativa não se esgota nos dias do evento. É bem certo que muitos dos jovens, por causa dela, pensarão em escolher a Universidade da Beira Interior para continuar os seus estudos, e disso darão conta aos seus amigos por efeito de arrastamento. Mas é também verdade que este evento ajudou os indecisos a compreender melhor o mercado de trabalho. Em Portugal, e apenas nos próximos 4 anos, estima-se que surgirão mais de 15 mil novas oportunidades de emprego na área das novas tecnologias. A engenharia está de novo na moda.

Mas há um efeito estruturante, mais profundo, que é muitas vezes esquecido. É com eventos desta natureza que o Fundão, a par da agroindústria e da cereja, começa a ser cada vez mais reconhecido como cidade da tecnologia, seja ela informática ou mecânica de precisão. Muitos dos jovens de elevado potencial que participaram no evento serão, daqui a vinte anos, líderes de empresas e responsáveis governamentais. E a imagem que guardarão do Fundão não é a do interior desertificado, mas sim a de uma terra de inovação e tecnologia.

A UBI não será para eles uma universidade remota pois recordarão que, durante a sua participação no Ignite Your Future, o Thimes Higher Education a classificou entre as 150 melhores Universidades do mundo com menos de 50 anos, num exigente ranking com milhares de instituições de todo o mundo. As mentalidades mudam-se atuando com tempo, e semeando, para mais tarde colher. A visão de longo prazo que o Fundão promove é de enaltecer, especialmente num mundo onde o aplauso imediato, de curto prazo e vistas curtas, é muito mais procurado.

A Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Maria Fernanda Rolo, associou-se ao evento pois percebeu o efeito multiplicador da iniciativa. Sendo historiadora, com extensa obra escrita sobre a engenharia em Portugal, conhece bem o impacto que a tecnologia tem sobre a qualidade de vida e o progresso do país. O seu fascínio sobre o modo como os Professores da UBI tinham engendrado os desafios colocados aos estudantes, nas diversas atividades do Ignite Your Future, levou-a a pensar em exportar o modelo para outros pontos do país. Eis a cova da beira a exportar conhecimento para o resto do país. Isso não teria sido possível sem o enorme esforço e dedicação que os Professores da UBI introduziram no evento, mas que hoje lhes permite ter um know-how único a nível nacional, nesta que já é a segunda edição.

Durante esta intensa maratona, os estudantes aprenderam a resolver desafios técnicos e científicos, mas também aprenderam outras coisas. Compreenderam que a tecnologia e a engenharia são coisas diferentes. A tecnologia é o resultado de um processo, é um produto, e a engenharia é o modo de conseguir esse resultado, é a ferramenta intelectual que o permite produzir. Todos podemos usar as novas tecnologias, mas poucos são privilegiados em saber como as produzir. O Ignite Your Future fez com que isso estivesse ao alcance destes jovens. Num mundo onde o acesso à informação é universal, e tendencialmente gratuito, falta distinguir entre informação e conhecimento. De facto, a informação é ubíqua, mas é necessário transformar essa informação em conhecimento.

Os estudantes compreenderam melhor que, para adquirirem conhecimento, necessitam de ajuda. E essa ajuda vem através dos mentores e professores. O conhecido economista Miguel Cadilhe, que recebeu recentemente um doutoramento honoris causa, fez questão de recordar publicamente o quanto devia aos seus professores. E recordou, em especial, a sua professora primária de noventa e cinco anos. É certo que os participantes no Ignite Your Future, à medida que venciam os desafios, não deixaram de gratamente recordar os ensinamentos transmitidos pelos seus professores de ensino básico e secundário.

Uma empresa internacional, como a Altran, sabe reconhecer o talento e o potencial quando o vê. Ela é orientada por objetivos estratégicos exigentes, num mundo onde a competição é global. É por isso que se associa à UBI, reconhece-lhe o talento e valoriza-o. É também por ver mais longe que identifica o Fundão como a cidade das tecnologias do futuro, e não quer deixar de lhe estar associada. Com o aproximar da Páscoa, um tempo de esperança, é bom termos acontecimentos destes, que mitigam a desolação com que por vezes observamos este território.