InícioOpiniãoFoi bom, não foi?

Foi bom, não foi?

Nuno Francisco

O dia 8 de novembro de 1998 fica inscrito na história da democracia por uma razão muito particular: foi o dia em que se realizou o referendo sobre a regionalização. Pela primeira vez (e única?), fomos chamados, em consulta nacional, para nos pronunciarmos sobre a criação de oito regiões administrativas: Entre Douro e Minho;  Trás-os-Montes e Alto Douro; Beira Litoral; Beira Interior; Estremadura e Ribatejo; Região de Lisboa e Setúbal; Alentejo e Algarve. Os resultados ­–­ apesar  de não serem vinculativos –  não deixaram margem para dúvidas: mais de 60 por cento dos eleitores rejeitaram a concretização do processo de regionalização. O que veio depois é que ainda não se compreende: o assunto tornou-se num perigoso tabu, num tema proibido, pejado de cuidados na sua abordagem. Quase 20 anos depois estamos nisto, nesta cândida resignação, nestas águas remansas, sem que alguém erga a voz para fazer as questões evidentes: Que implicações teve o dia 8 de novembro de 1998 para a Beira Interior? Ficámos melhor? Evitámos um grande problema? Ou, pelo contrário, perdeu-se uma oportunidade histórica para se começar a  estancar definitivamente os graves problemas económicos e demográficos da região?

Damos de barato que muito do argumentário primário que foi usado na campanha ainda envergonhe alguns do que o utilizaram e, como tal,  convém deixar que o tempo encubra as bonitas palavras proferidas sobre a suposta divisão de um país uno, as profundas frases que sustentaram a  refinada teoria da multiplicação dos “tachos” dos políticos  e outras pérolas retóricas  que os arquivos dos jornais guardaram para memória futura.

Se não podemos saber o que seria hoje a Beira Interior investida de capacidade e autonomia para tentar resolver muitos dos seus problemas, sabemos o que é hoje a Beira Interior, 19 anos após o referendo. Sabemos que a região está a perder três mil habitantes por ano (e com tendência para acelerar. De resto, preparem-se para o que o próximo Censos vai revelar); sabemos que o elevadíssimo índice de envelhecimento está a tornar largos territórios social e economicamente inviáveis a curto prazo; sabemos que a taxa de natalidade continua longe de repor  gerações; sabemos que os fluxos migratórios continuam a ser amplamente desfavoráveis à Beira Interior. E sabemos mais: sabemos que nenhum destes indicadores dá o mínimo sinal de abrandar, quanto mais de se inverter.

Quando os grandes estudos demográficos, nomeadamente o Censos, dão à estampa os resultados, há muita comoção, indignação e receituário a rodos contra estas maleitas. E há sempre aquela tentaçãozinha de olhar para o concelho do vizinho para ver se está pior que o nosso.  Foi assim em 2011 quando se soube que em dez anos tinham “desaparecido” mais de 30 mil habitantes da região. Numa década evaporou-se a população equivalente à do concelho do Fundão, um dos maiores da região. Tão simples  e chocante quanto isto. Muito se falou e se escreveu e tantas vestes se rasgaram. Estamos em 2017 e continua cada um por si a tentar estancar uma avalanche. Lamentam-se as mágoas que nos afligem, mas ninguém, duas décadas depois, é capaz de trazer para o debate a palavra proibida: “Regionalização”. Pelos vistos… Foi bom, não foi?