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Fátima e Francisco

Gabriel Magalhães

Algumas pessoas poderão achar estranho que um Papa progressista como é Francisco vá a Fátima. Terão até a impressão de que se trata de um passo atrás: de um recuo rumo ao tradicionalismo mais rançoso. Ora, quem assim pensar não sabe o que é Fátima – e também ignora quem é Francisco.

De facto, o santuário português constitui uma bela navegação espiritual que se alimenta de uma tripulação popular: as pessoas mais simples, o povo mais puro, são os marinheiros desta barca do Paraíso. Um Papa do povo, das pessoas, como é Francisco, não podia deixar de embarcar nesta viagem.

Bem sei que há quem pense que tudo aquilo constitui uma instrumentalização das consciências, uma maré de marionetes pendentes de fios sacerdotais e episcopais. Quanto a mim, fiquei esclarecido quando fiz uma peregrinação a pé ao santuário organizada pelos “Amigos de Fátima”, um grupo da Covilhã. Eram, na sua maioria, gente simples, sem qualquer pendor clerical. Vão porque querem – porque têm aquela Fé.

Trata-se, de resto, de uma espiritualidade que escapa em boa parte ao controlo da Igreja. Faz-se pelos caminhos fora uma vez ao ano e, depois, continua no íntimo de cada um. Os “Amigos de Fátima” organizam tudo brilhantemente, gerindo as lágrimas e sorrisos dos peregrinos.

E é assim que o santuário se enche cada ano: porque há muita gente que, de livre vontade, quer lá estar. Uma pessoa do povo, em Portugal, se deseja triunfar, tem de se disfarçar de doutor, de engenheiro, de professor ou de ricaço. Fátima é o único lugar em que pode vencer continuando a ser quem é: com a sua cara limpa e lavada diante de Deus. Jacinta e Francisco, de facto, pastores eram e pastores serão mesmo na pompa dos altares. Fátima representa, com efeito, uma bela vitória do povo na nossa história.

Por outro lado, nos oaristos que se deram entre a Virgem e os pastores, o grande tema foi a paz. Isso significa que, na espiritualidade do santuário, as figuras divinas pretendem ajudar as pessoas nas suas dores – e nessa cruz maior, quase insuportável, que costuma ser uma guerra. Deus não representa, pois, uma teoria, mas sim uma intervenção: uma solidariedade. Ora, é isto que o Papa Francisco pensa, e a sua ação tem sido também uma luta pela concórdia.

Finalmente o santuário acolhe e abraça a dor das pessoas. Dá sentido ao sofrimento e, através da pedra filosofal da Fé, transforma-o em esperança. Ora, se há pontífice que se comove com a dor humana e se abeira dela, é Francisco. Não sejamos arrogantes, preconceituosos, em relação ao nosso grande santuário mariano.

Deixem-me acabar com uma história: um dia, em Fátima, um religioso africano viu uma mulher a cumprir uma daquelas polémicas promessas de joelhos. Deteve-a e explicou-lhe que Deus não pretendia aquilo dela. A senhora olhou para o sacerdote e perguntou-lhe: “Olhe, Senhor Padre, eu a si prometi-lhe alguma coisa?”. Ele respondeu: “Não”. E ela, sem dizer mais nada, prosseguiu com o que estava a fazer.