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Falácias do desenvolvimento

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José Páscoa

Ideias sobre como contribuir para o desenvolvimento do nosso território todos têm, em maior ou menor quantidade. É necessário, aliás, que este desiderato seja uma preocupação de todos. Só quando todos o assumirmos é que, comunitariamente, cada um pode dar a sua contribuição no campo das ideias ou das ações.

Mas, sempre que falamos de desenvolvimento temos de distinguir duas vertentes, não necessariamente duas visões. Uma vertente endógena, baseada no desenvolvimento de base local. E uma vertente exógena que implica a criação de um efeito de adicionalidade externa, este traduz-se num resultado disruptivo.

Na vertente endógena o desenvolvimento é sustentado em produtos locais, aos quais se associam componentes que visam aumentar o valor acrescentado bruto. Muito trabalho tem sido desenvolvido nesta vertente. O queijo, o vinho, a cereja, entre outros, são exemplos de como as pessoas passaram da retórica à ação. Hoje, vende-se mais caro 1 litro de vinho local do que nos anos 80 o garrafão cheio de 5 litros. O mel, que noutros tempos se vendia a granel, hoje encontra-se nas prateleiras das lojas em recipientes elegantes, onde o custo final é muito superior ao do produto base. E é assim que deve ser.

No turismo, também com base nos nossos produtos endógenos, tem sido feito um excelente trabalho de valorização. De um turismo de autocarro e farnel, que apenas produzia valor para as longínquas empresas de camionagem, passámos a um turismo de qualidade que se aloja e amesenda em modernas instalações hoteleiras. Neste particular a competição provocou uma melhoria de todo o ecossistema. Nomeadamente, após a abertura do H2O Hotel em Unhais da Serra modernizaram-se as unidades hoteleiras existentes, em particular as da zona sul da Serra da Estrela.

A maior falha tem-se verificado na vertente exógena, a externa. A grande maioria dos atores locais tem-se mobilizado com sucesso para catalisar o desenvolvimento de base local. São pessoas empreendedoras, que não viram a cara aos desafios e enfrentam o futuro com determinação. Mas, na vertente externa o esquecimento é ensurdecedor.

Nos últimos 20 anos não se conhece nenhum grande projeto que tenha sido promovido do exterior para dentro deste território. A A23 terminou de ser construída em 2003. Sim, estamos em 2017, já lá vão 14 anos. E mesmo essa autoestrada é falacioso que possa ser considerada como um grande projeto do exterior para o interior deste território. A maior parte da sua construção deu trabalho a empresas e pessoas de fora da região, e serve principalmente para escoar produtos da europa para Lisboa, e vice-versa. Não se trata de um verdadeiro grande projeto de desenvolvimento do território, ao nível do efeito que foi criado localmente com o desenvolvimento da indústria têxtil, a abertura das Minas da Panasqueira, ou da Celtejo em Vila Velha de Ródão.

O estado não pode substituir-se aos empresários. Mas, mesmo nos EUA, como bem conhece quem visita o país regulamente, sabe-se que o estado é essencial para ajudar a distribuir os grandes investimentos externos por todo o território. É assim que o estado faz nos EUA, o país campeão da iniciativa privada. Mas, a empresa construtora de aviões Embraer foi instalada em Évora, a Ford-Volkswagen em Setúbal, e assim sucessivamente. Aqui parece que também se faz assim, mas só nalguns locais.

As grandes empresas internacionais quando se instalam em Portugal gozam de extensos benefícios fiscais, e outros adicionais. É essencial que esses benefícios estejam associados a uma negociação que promova a instalação dessas empresas em territórios do interior do país.

Todos os meses dezenas de delegações governamentais percorrem os vários países do mundo para captar investimento para Portugal. O que se vende é Lisboa e a vista rio. Não se trata aqui de ver Lisboa, o Porto, e todo o litoral como os maus da fita. Trata-se, outrossim, de reconhecer que nos têm tratado mal e não ter pejo de o dizer, e repetir.

Lembram-se do último grande investimento industrial, daqueles que criam emprego aos milhares neste território? Esqueçam, essa tem sido uma tarefa que apenas os municípios vão colmatando com os fracos recursos que lhes fornecem. Mas, no futuro, alguém terá de aceitar o desafio de impor que os grandes investimentos, negociados com multinacionais, sejam instalados obrigatoriamente no interior do país.