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A essência do silêncio

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Nuno Francisco

A DISTÂNCIA não se traduz apenas na perda evidente, mas na saudade que dela brota e que nos aflige. A saudade de um lugar que se fez longínquo, que foi o nosso; a saudade do chão que aprendemos a pisar. A longa travessia do tempo traz-nos à memória estes monumentos erigidos no terreno fértil de ausência, nestas veredas feitas de passos omissos. Olhando para estas geografias beirãs, vemos o que a ausência nos legou: silêncios recolhidos, omissões consentidas e distâncias, longas distâncias que não se vencem sem dor, sem lágrimas e sem aquela resignação consentida que acalma o coração que pula na demanda dos que se ausentaram.

Num destes dias, o destino cruzou-se com uma pequena aldeia beirã que repousa, discreta, na serra da Maunça. As ruas entregues a si e aos seus silêncios como se fossem artérias moduladas pelo impulso das distâncias consentidas, mas nunca compreendidas. É esta torrente que nos trouxe até aqui. Olhando em volta, apercebemo-nos que a distância se impôs para fugir às agruras da proximidade, do destino em desatino, da perspetiva de uma implacável dureza dos dias que retribuíam com a pobreza quase endémica. Com o andar dos dias, os caminhos da lonjura ganharam dimensão e redesenharam estas geografias beirãs. Aldeias que se esvaziaram, aldeias que repousam aquém das serranias numa ansiosa espera com hora marcada para agosto e dezembro, quando os reencontros se selam e a saudade se encolhe.

São estas partidas e reencontros que marcaram muito da nossa identidade e do nosso ser coletivo. A Beira da emigração, dos lugares da ausência. Esta rotina da partida e do reencontro, da saudade que encobre os dias, aquela distância que se consente, que se percebe, mas que não se interioriza. A partida como inevitabilidade de fuga à pobreza que marcou gerações de beirões está tão nítida nestas ruas que tantas vezes pisamos, mas que não sabemos ler com a devida atenção.

O perpetuar desta condição, entranhada na nossa existência coletiva, deixou-nos marcas que muitas vezes nem sequer nos apercebemos do quão profundas elas se podem revelar. O pesado fenómeno da emigração traduz, na essência, a constatação evidente das fragilidades de um território. O abandono (forçado) da geografia dos afetos e a partir da qual se desenha esta cartografia dos silêncios, é um inequívoco sinal de falha. Quem se apercebe do histórico dos fluxos migratórios da região facilmente entenderá que há uma debilidade crónica há muitas décadas: um parco dinamismo económico, que resvala para uma inevitável falta de emprego que permita fixar as famílias é, de uma forma simples, aquilo que está na génese da emigração. Mas o problema que se coloca é outro. Até que ponto é que já interiorizamos que isto será sempre assim? Até que ponto nos damos por vencidos? Quando percorremos as ruas vigiadas pelo silêncio, quando olhamos para as escassas casas por onde ainda assoma algum sinal de presença, o que pensamos? O silêncio está prestes a derrotar-nos definitivamente? A questão não é tentar perceber porque é que ainda alimentamos os fluxos migratórios, mas é se isso ainda nos incomoda ou se já entregámos de bandeja as nossas ruas e casas à ausência.