InícioOpiniãoA esperança explicada apenas numa lição

A esperança explicada apenas numa lição

Nuno Francisco

 Há palavras que só têm efeito quando dentro delas existe conteúdo; quando são habitadas  por pessoas, ações e por desinteressadas vontades. “Esperança” sempre foi uma  das palavras mais invocadas por entre o vazio, como um suave repetidor para nos dizer que tudo ficará na mesma ou para acalentar uma crença de que por obra da providência ou do mero acaso as coisas um dia melhorarão. Esta é a esperança que se alimenta a si própria na crença de que um qualquer  determinismo acabe por resolver o que tem que ser resolvido e que, como sabemos, nunca se resolve, isto se não se agravar. O maior inimigo da esperança  é a inércia que fica refém deste vago conceito, desprovido de outro sentido que não aquele de ficarmos a ver o quotidiano a desenrolar-se por iniciativa, não apenas do acaso, mas de interesses particulares de outrem e que pouco dizem ao chamado bem comum, sobre o qual muitos falam, mas que, geralmente, termina quando deixa de se cruzar com o bem pessoal de uns quantos. Tudo isto está visto e revisto, como bem se sabe.

Mas é de outra esperança que hoje se escreve; da esperança real porque é tomada em mãos pela cidadania, a tal que é feita com gente dentro, com a simples vontade de reerguer  algo que é comum. Uma esperança que tomou real forma após o mais dramático incêndio de sempre na Serra da Gardunha. Ainda a terra fumegava, já se erguia uma onda de revolta pelo mar de cinzas em que a Gardunha estava transformada, precisamente 12 anos depois de um outro grande incêndio lhe ter roubado grande parte do património natural. Dezenas de vontades e de ideias,  ergueram-se e deram pleno e raro sentido à palavra “Esperança”.  Por toda a corda da Gardunha, que une tantos para além das fronteiras das freguesias e dos concelhos; nas mesmas fronteiras  que o fogo não reconheceu na sua voragem destruidora, nasceu uma vontade que já caminha com passos firmes no terreno. Esta esperança que brotou espontaneamente da cidadania não esmoreceu após o choque inicial de ver este espaço comum em cinzas; antes ganhou força, coordenou-se e, em escassos dias, tratou de criar as condições para se desenvolverem viveiros para  espécies autóctones da Gardunha a serem utilizadas numa futura reflorestação responsável e redigiu um manifesto em prol de uma serra “ unida, ordenada, biodiversa e sustentável”.

Há semanas escrevi nesta mesma coluna, logo após a catástrofe que tinha assolado esta geografia, que a Gardunha teria orgulho nos seus filhos pelo que naquelas noites e dias de desassossego fizeram na sua defesa ­– insisto, não pensando apenas naquilo que lhes pertencia, mas naquilo que era de todos – traduzido em tantos atos de bravura que nunca conhecerão as  primeiras páginas dos jornais. A plataforma cívica “Cidadãos Pela Gardunha” que congrega as vontades de várias associações e particulares dos concelhos do Fundão e de Castelo Branco é uma decorrência natural de tudo isso. De tantos que não só não se conformam com o que se passou, mas que, sobretudo,  não querem que tal  tragédia se repita. A esperança de que isso aconteça é real porque está cheia de gente e de vontades. Esta “esperança” não é uma palavra vaga, porque dentro dela tem gente, tem os filhos da Gardunha.