InícioOpiniãoÀ espera do próximo milagre

À espera do próximo milagre

Paulo Duarte

ADMITO que, quando sou confrontado com a notícia do encerramento de um serviço, bancário ou outro, em regiões não abençoadas por Deus, pela natureza, ou mesmo por alguma dupla de Santos, outrora humildes pastorinhos; sou imediatamente assaltado por um dilema de difícil resolução, que passo a explicar.

Parte do meu “eu”, fruto da formação académica em gestão e do conhecimento prático que me foi sabiamente transmitido no desempenho da atividade profissional, é instintivamente levado a compreender e a concordar com a decisão de encerramento de um serviço que continuamente gera prejuízo económico para uma das partes. Este é, aliás, o argumento da CGD para justificar o encerramento de balcões. Contudo, outra parte do “eu”, em contraposição, fica furioso e revoltado com estas decisões pelo dano que provocam no quotidiano das pessoas e pelo que representam para o futuro destas regiões.

Como se pode conceber que uma região seja competitiva se dela foram retirados serviços básicos de suporte? Será lógico investir na promoção de regiões que não conseguem proporcionar a assistência básica às populações?

Não nos deixemos iludir pelo flash da tecnologia ou pela opulência dos fundos comunitários, porque a base da competitividade de qualquer região, país ou empresa são as pessoas. É nelas que é preciso concentrar o investimento, pois sem elas nada funciona de forma sustentável. O reflexo desta ausência de investimento estratégico na manutenção de recursos e serviços pode ser observado no relatório “Empresas Gazela 2016” publicado pela CCDRC. Nele é indicado que em apenas 45 por cento dos municípios da região centro é possível identificar empresas gazela, sendo que, com exceção dos munícios de Castelo Branco e Guarda, não há empresas gazela em mais algum município da faixa interior, desde Vila Velha de Ródão até Meda. Assim como na faixa do pinhal desde Oliveira do Hospital até ao Sardoal. As gazelas povoam basicamente a faixa litoral desde Ovar até Torres Vedras.

Desde sempre defendi que qualquer atividade deve gerar excedentes. Inclusive na área social e em instituições sem fins lucrativos. O lucro é indispensável ao futuro de qualquer organização, pelo que deve estar permanentemente na sua mira. Não obstante, há áreas que impõem o ajustamento do lucro a compromissos sociais e a situações excecionais, nas quais é necessário sacrificar certas atividades para financiar outras, qualificadas como prioritárias ou essenciais. Trata-se apenas de ter consciência da importância de determinadas causas e canalizar receitas de umas ações para cobrir os custos de outras. O que se designa por: fazer uma gestão equilibrada.

É precisamente a isto que não temos assistido em Portugal, à capacidade para fazer uma gestão equilibrada. É por demais óbvio que o governo e as empresas de dimensão nacional se mostram incapazes de compreender os dramas regionais e os reptos de um desenvolvimento equilibrado. Ao mesmo tempo, o sistema político revela toda a sua incompetência para assegurar uma representação efetiva, adequada e consequente às populações destas regiões, repartindo os recursos em função do lucro imediato, sem atender a dimensões sociais de curto prazo, nem a metas e prioridade estratégicas de longo prazo.

E não, não é necessário mais um milagre, depois do tetra do Benfica, da beatificação dos pastorinhos e da vitória dos irmãos Sobral no Eurofestival. Basta visão, empenho e vontade. Tudo o que parece continuar a faltar.

pduarte@gmail.com