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Escritor mexicano no Fundão

Manuel da Silva Ramos

O exílio sempre favoreceu os grandes escritores. Joyce, Beckett, Gombrowicz, Nabokov, são exemplos deste dogma literário. David Toscana, que pertence indiscutivelmente a esta categoria, acaba de ver traduzido para português o seu último livro “ Evangelha”.

Na realidade há já três anos que o escritor mexicano vive em Lisboa, cidade que ele adora pela sua gastronomia, as suas tascas, o bom vinho e a sua vida barata. Porém, a chegada de Trump à presidência dos Estados Unidos da América teve um efeito devastador na sua vida de errante bolseiro do governo mexicano. O peso mexicano caiu quase de metade em relação ao dólar e consequentemente a bolsa do David diminuiu significativamente. Ei-lo pois a passar os últimos meses em Portugal pois a sua nova morada será no sul de Espanha.

Um admirador amigo emprestou-lhe a casa para morar e escrever. Enquanto ele não parte, vamos recebê-lo esta quinta-feira no Clube de Leitura do Fundão .Discutir, em carne e osso,  o seu último e maravilhoso livro e confirmar as nossas leituras. É sempre gratificante poder falar com um escritor que nos emocionou, nos fez reflectir ou nos levou por caminhos que a priori nunca tínhamos pensado tomar.

Assim os vinte um membros do Clube de Leitura da Biblioteca Eugénio de Andrade do Fundão ( e outros leitores ou curiosos que queiram aparecer) poderão pela primeira vez apreciar ao vivo um dos representantes maiores  da literatura actual de língua hispânica. Depois de ter publicado em 2014 “ O Exército Iluminado” (Edições Parsifal), uma autêntica obra-prima , que trata da epopeia de um grupo de crianças deficientes mexicanas que invade os Estados Unidos da América para recuperar o estado do Texas, outrora território pertencendo ao México, David Toscana reincide  com outro belíssimo romance, desta vez mais polémico e transgressivo.

E se Jesus Cristo tivesse nascido mulher? Partindo da resposta afirmativa a esta questão, o grande escritor mexicano constrói um Evangelho feminino desde o nascimento de Emanuel, a Filha de Deus, até à sua crucificação, ressurreição e ascensão definitiva «para além dos lugares ignotos da criação». Tomando por canevas a saga bíblica conhecida por todos, Toscana  ora inventa, com uma imaginação poderosa, algo de diferente, original e imensamente poético, ora navega no centro de certos episódios bíblicos conhecidos mas oferece-nos deles uma visão radical, grotesca ou muito particular.

Esta Evangelha irruptiva abunda em elementos cómicos, patéticos, delirantes, triviais, etc. Estamos também aqui, e devido ao abundante material investigativo que Toscana manipulou, estudou e subverteu, na riposta à enteléquia dos evangelistas e fatalmente no grau máximo do humor negro .

São exemplos disto: a cena,  em que os reis magos, decepcionados com as partidas do rei dos judeus, pegaram nas oferendas e regressaram a casa mas foram chamuscados por um raio; as  tribulações múltiplas do arcanjo  Gabriel  que foi várias vezes espancado por ter proposto a mulheres virgens uma incubação divina e se tornou alcoólico por Deus se ter esquecido dele na Terra.

Nesta obra iconoclasta, José, o carpinteiro, é uma figura muito presente e humaníssima. Emanuel, a Filha de Deus, é fascinante e assexuada embora se tenha excitado um pouco e humanamente três vezes durante a sua curta vida : uma quando se deitou no mar com Simão Pedro e quando este a abraçou com força depois de a ver ressuscitada e a terceira quando um soldado romano se agarrou fortemente a ela  para a levar para a cela.

A figura de Emanuel agradará às feministas, tenho a certeza. Basta abrir este livro na página 289, depois da Filha de Deus ter ressuscitado : «Emanuel parecia uma rapariga como as outras, que cozinhava, amassava, lavava e remendava a roupa sem procurar atalhos com um milagrezinho aqui e outro ali.» Só depois de ter partido para o espaço infinito dos céus, é que os discípulos começam a fazer o que ela sempre desejou: viajar para pregar o Evangelho e partilhar refeições, sabendo que «antes do temor do inferno ou das bondades da vida eterna, estavam os prazeres do estômago.»

E esta obra magnífica de Toscana termina com a seguinte proposta : à Santíssima Trindade, ele acrescentou a Filha e será uma Tétrade Santíssima (Pai, Filha, Filho e Espírito Santo). É pois também o triunfo da literatura. Este livro desmistificador tem as soberbas qualidades do grande escritor que é David Toscana: uma grande imaginação e invenção, uma intensidade na narrativa que capta logo o leitor assim como um envolvimento romanesco fora de série. E claro, o escritor fez o trabalho de casa, investigando muito.

Numa entrevista recente disse: « Sou leitor da Bíblia. É um clássico da literatura  e devia estar ao lado de Shakespeare e Cervantes. Mas para escrever este romance tive de ler muito sobre a época e arqueologia» E mais à frente: «Os evangelhos foram escritos em grego. Não há dúvidas que os escritores conheciam Homero. Entre eles, o melhor narrador é Lucas, mas Mateus inventa histórias memoráveis…» Eis um livro que nos faz lembrar  “ A Última Tentação de Cristo” de Kazantsakis “. “ O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de Saramago, “ Em Directo do Calvário” de Gore Vidal,  “ O Homem que Morreu” de D. H. Lawrence, as famosas pinturas de mulheres nuas crucificadas do grande Félicien Rops e, por ricochete cinematográfico, a película “ La Ricotta” de Pasolini.

David Toscana é, sem dúvida nenhuma, um dos raros escritores de língua hispânica a fazer-nos esquecer o Gabriel Garcia Marquez. Um facto curioso. Um dia em Monterey ( cidade onde o escritor nasceu), o Eusébio parou o carro que conduzia e deu boleia ao David. O nosso escritor nunca esqueceu isso.