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Encontros cinematográficos do Fundão

Manuel da Silva Ramos

É muito reconfortante assistir no Interior à descoberta de um cinema muitas vezes negligenciado, ignorado ou maltratado, ou até amaldiçoado pelos magnatas, agiotas e outros desonestos  passadores  culturais da Sétima Arte. Esta sétima edição foi mais um sucesso estrondoso. Organizado pelo Município do Fundão e pela Associação Luzlinar, tendo como capitães Mário Fernandes e Carlos Fernandes, este evento teve constantemente a fasquia alta, tanto na categoria dos filmes projectados , como nos convidados que debateram com profundidade e entusiamo. E no final, houve uma surpresa: a primeira projecção mundial do filme de Manuel Mozos “ Ramiro “.

Cereja magnífica em cima do bolo. Abramos pois o Livro de Ouro destes dias. Do  Andrea Tonnacci projectaram-se três filmes poderosos e imensamente políticos. Feitos há mais de cinquenta anos, estes filmes são de uma grande actualidade lancinante que lembra a bagunça actual por que passa o Brasil de Temer com a sua polícia militar repressora de  manifestantes. Principalmente o  “ Blábláblá”, que representa um engravatado ditador político, falando para a rádio  com palavras ocas. A imagem deste  manipulador palavroso está  entrecortada com cenas de violência. Esta violência endémica do Brasil  é explorada ,sábia e esplendorosamente ,por Andrea Tonnacci   nos seus dois outros filmes presentes.

“ Olho por Olho” é a agenda semanal e criminal de um grupo de amigos que resolve cometer em cada dia um crime diferente para fugir à frustração e impotência das suas vidas. Viajando de  carro e  com uma amiga a servir de isco, eles semeiam o terror e a maldição. “ Bang-Bang “ é uma farsa surrealista, muito livre e muito metafórica.  Um homem-macaco é perseguido por criminosos muito estranhos. Basta ver  a cena em que os três gangsters estão num quarto (um com máscara de macaco, o outro vestido de mulher e o terceiro cego apalpando o terreno com uma bengala) para se apreciar a invenção e a novidade deste filme que constitui uma das grandes obras do Cinema Marginal e do cinema brasileiro tout court.

Os sapientes críticos brasileiros Sérgio Alpendre, Bruno Andrade, Matheus Cartaxo e Lucas Baptista ( da revista on line “ Foco “) participaram a seguir no debate que durou até às duas da manhã e em que se falou entusiasticamente da situação política que se vive no Brasil. No sábado, foi o dia Cimino, outro poeta do cinema. Deste realizador ,que devia estar em carne e osso nestes Encontros se não tivesse falecido recentemente, apresentaram-se duas obras-primas : “ Heaven´s Gate” e “ The Sunchaser”.

Há muito tempo que não tínhamos uma epifania cinematográfica assim, tão longa e emotiva. Foram perto de seis horas de um cinema poético, político e com um vibrato de sensibilidade ímpar. Nunca assisti em Portugal a isto. A arte mágica, passando no ecrã, que jorra poesia e errância e um público rendido com o coração aos saltos. Porque é isto o cinema  sem concessões de Michael Cimino: personagens terrivelmente  verdadeiros que vão até ao fim do que pensam. O herói de “Heaven´s Gate depois de ter combatido as injustiças no Oeste Americano, termina a vida a errar pelos mares do mundo, fiel à sua consciência ética e ao seu amor perdido.

Quanto à outra obra-prima, “ The Sunchaser”, é uma errância vertiginosa pela América, com um médico raptado por um doente, um preso de ascendência navajo. Filme mais uma vez  de procura da concretização do sonho no real imediato, Cimino parece dizer-nos com estes dois filmes que a vida só vale a pena de ser vivida intensamente e com um fervor de dignidade humana. Marta Ramos, com a sua bela voz calorosa, ofereceu-nos algumas canções semeadas por Cimino no seu único romance” Big Jane”.

Foi um regalo ouvi-la e ela fez-nos ver os relâmpagos do Nevada e Billy, o companheiro de Big Jane, improvisando uma ária de amor para Lady Jane: “ I wrote a song…/ to sweet Lady Jane». Miguel Marias, ex-director da Filmoteca de Madrid, encantou-nos com a sua erudição ciminiana e todas as suas intervenções foram pertinentes.  E finalmente no sábado, tivemos encontro com os realizadores portugueses. Mas antes apresentou-se um livro, editado pela A23, com textos já publicados na revista digital “ Foco”.

De salientar a notável entrevista que fez Mário Fernandes a Michael Cimino, em 2005, na Cinemateca Portuguesa. E veio enfim o “ Mal” de Alberto Seixas Santos, mais um filme intensamente político que mostra a inocência que se salva ( uma miúda perdida na cidade e que ninguém pode encontrar) e a putrescência burguesa que se desenvolve entre sexo, negócios e traições. Um casal de antigos revolucionários (ele, um advogado burguês corrupto e ela, uma simpatizante da  IRA) desagrega-se porque este contraiu a sida e o propagou à sua mulher. Em paralelo, há a história de um marginal drogado que rouba , mata e também não se salvará. A denúncia dos antigos revolucionários que traíram é fortíssima e o resto dos portugueses deste filme parecem culpados e num beco sem saída, entre suicídio e terramoto final. É uma das mais belas películas portuguesas que eu vi até hoje.

Luís Alves de Matos apresentou dois documentários soberbos sobre  o cinema de Seixas Santos. Um, sobre a rodagem do filme e o outro, uma longa entrevista em que o cineasta fala da sua infância, do cinema, de política, do futuro do cinema, etc. E por fim, Miguel Mozos surpreendeu-nos com o seu “ Ramiro”. A história de um quadragenário alfarrabista irresoluto , que hesita entre uma carreira literária e uma vida amorosa estável e que se deixa ir na rotina portuguesa, é surpreendente. Há muitas coisas interessantes nesta  película cheia de empatia mas só pela presença extraordinária da avó afásica e da neta grávida não se sabe de quem ,este filme merece ser visto. O Fundão, com este tónico Encontro cinematográfico, provou que está incontestavelmente no mapa da cinematografia em Portugal.