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Emigrante, o construtor de mundos

José Páscoa

A EMIGRAÇÃO é sinónimo de alegria e de tristeza. É alegria pela oportunidade que dá aos que a demandam de construir a vida com que sempre sonharam. Mas também é tristeza pelo vazio que deixa e pelas saudades que cria nos que cá ficam. Ainda assim, o resultado final é bastante positivo para todos os que conseguiram aproveitar as oportunidades que nela encontraram.

Mas o emigrante sente um dever moral, para com a sua família e a sua terra. Essa consciência foi sempre assumida no passado, mas hoje começa a ficar esquecida. O emigrante, quer regresse definitivamente ou venha por cá passando, alimenta um desejo insanável de contribuir para o progresso da sua terra. Sempre assim foi em todas as épocas. Se descermos as terras que vão desde o Douro até Vila Velha de Ródão, por todo este vasto interior, encontramos muitas casas apalaçadas, mansões, e grandes quintas criadas por emigrantes que regressavam do Brasil no seculo XIX. Tendo feito fortuna na américa regressavam às origens para contribuir para o desenvolvimento das suas terras. Não era uma opção, era o que lhes ditava a consciência. E implementavam cá o que faziam lá, as grandes fazendas.

Muitos dos emigrantes de meados do século XX também regressaram. Após muitos anos de trabalho na França, Alemanha, Holanda, Luxemburgo e Suíça voltaram às suas terras para implementar negócios e criar emprego. O cluster de polimentos e mecânica de precisão deve muito aos emigrantes que para cá trouxeram essas empresas. Cada um foi contribuindo com o que sabia e podia. E todo e qualquer Presidente de Câmara os recebe de braços abertos, como deve ser.

Mas há muitos emigrantes que já jogam na primeira liga. Com 14 anos Armando Pereira emigrou sozinho para França, sem mala, envergando dois pares de calças e duas camisolas. Hoje, é co-fundador da Altice, que comprou a PT e a Media Capital. Há alguns meses anunciou a intenção de criar 1000 empregos em Vieira do Minho, a sua terra natal.

Os emigrantes de hoje não são obrigados a regressar, como os seus pais. Os meios de comunicação e a facilidade de viajar encurtaram o mundo. Mas é importante que estes emigrantes continuem a honrosa tradição de contribuírem para o desenvolvimento das suas terras. Há milhares de emigrantes que têm oportunidade de, com pequenos gestos, criar emprego neste interior desertificado. É essencial despertar e renovar esta consciência nos emigrantes do século XXI.

Muitos dirão que não devem nada a um país que lhes recusou as oportunidades mais básicas. Nada de mais errado. O emigrante deve a existência ao seu país, pois foi esse o país que o fez nascer. Foi esse o país que alimentou os seus pais, que criou os seus avós, cuidou dos seus bisavós e de muitos outros antes deles. O país Portugal não é uma entidade autónoma, algo que olhamos de fora. O nosso país é o resultado do que os nossos antepassados construíram. Bem ou mal, foi este país que nos fez nascer e seríamos muito egoístas se não o deixássemos melhor para os que aí vêm. Portugal é o que hoje fazemos dele para o futuro.

O emigrante é um construtor de mundos. Deixou a sua terra para construir noutro país, e deve retornar à sua terra para também aqui construir o futuro. É urgente mobilizar todos os emigrantes para o desenvolvimento e repovoamento do interior. Todos podem ajudar de acordo com a sorte, o engenho, e a arte que tiveram na vida. O pior que pode acontecer é Portugal ficar sem emigrantes. Aquele que emigrou e nunca mais cá retorna esse, já não é um emigrante, é apenas um número anónimo numa estatística de outro país.

A voz da consciência não se pode apagar no coração dos emigrantes. O seu país, a sua terra, pede-lhes esse imperativo moral, que promovam o desenvolvimento do interior de Portugal. E não há emigrante, daqueles que soletra a palavra com orgulho, que seja insensível a tal apelo. Esse é o verdadeiro emigrante que todos admiramos e honramos. É o emigrante construtor de mundos.