InícioOpiniãoE é isto…

E é isto…

Nuno Francisco

Em 1975, Pierre Viansson-Ponté, então, jornalista  do Le Monde, escrevia, de uma forma tão brilhante quanto irónica, aquilo que bem poderia ser uma fórmula para se evitar críticas e problemas no jornalismo, nomeadamente no de maior proximidade: “Não devemos incomodar ninguém, nem a Igreja, nem a autoridade, nem as boas famílias, nem os eleitos, nem os trabalhadores, nem os que nada fazem, nem as mulheres, nem tão pouco jovens e velhos, pescadores e caçadores… As festas são por definição um sucesso, os batismos ou casamentos emotivos, os enterros tristes, as condecorações merecidas, as eleições judiciosas, os comerciantes honestos, os funcionários devotos, todos são bonitos, todos são gentis…”.

Passe o natural exagero que possa estar associado a esta visão, não deixa de revelar algo que merece a nossa reflexão enquanto sociedade que preza a liberdade de imprensa, conquistada a custo e que é um indicador do desenvolvimento democrático e de tolerância dessa tal sociedade em que todos queremos viver.

Sabemos que em todas as épocas e em muitos lugares existiram  momentos que sobrevoaram os dias tentando condicionar a informação. As técnicas foram variando ao longo dos tempos; das mais cáusticas às mais comedidas, mas sempre com o mesmo fim: pressionar quem tem a função de produzir informação.  Nada nesta abordagem é realmente novo e tem já quase um estatuto de “lei” universal, bastamente ilustrada pela  História que trespassa longamente o início do jornalismo moderno. A coisa é complexa, mas pode simplificar-se assim: Quem se tenta sempre “tramar” primeiro é o “mensageiro”, porque aparentemente –  e só aparentemente – é o alvo mais fácil: está logo ali à mão, prontinho para se levar para ao cadafalso, na medida certa de um bode expiatório para todas as raivas.

Os jornalistas e os media dão a cara, assinam o que escrevem precisamente pelo dever de se responsabilizarem  perante o público. A credibilidade dos jornais e dos jornalistas reside nos nomes que ostentam e dos nomes que defendem.  O jornalismo não é, por isso, atividade que se possa praticar no anonimato, seja em blogues, seja no resguardo de perfis desresponsabilizantes de uma qualquer rede social, seja em qualquer outro lugar digital ou físico. Para fazer jornalismo é preciso, não duvidemos, ter, cada vez mais, coragem. Já para diminuir quem o procura fazer com sentido de responsabilidade, nem por isso. E, como tal, há uma certa tipologia de abordagem que faz parte de um campeonato em que, felizmente, a esmagadora maioria dos meios não competem nem competirão.

O  jornalismo, no seu todo, sempre esteve perante importantes desafios. Todos os jornalistas sabem que assim é, como também sabemos que jornais, as rádios e televisões serão sempre os mais extraordinários exemplos de integridade e isenção enquanto, e usando as palavras de Pierre Viansson-Ponté, “todos formos bonitos; enquanto todos formos gentis”. O problema é quando alguém entende que há uma primeira variação da fórmula, passamos, de imediato, – sem direito a um estágio sequer –  a comprometidos ao serviço de vis interesses. De vilões a heróis e de heróis a vilões num ápice. “E novidades?”, perguntarão. Provavelmente, nenhuma.