InícioOpiniãoPoucos e divididos: a receita para o desastre

Poucos e divididos: a receita para o desastre

Nuno Francisco

AS COISAS são de uma clareza tão evidente que, por vezes, custa indagar o que poderá ainda existir de tão incompreensível neste processo em curso. O brado (localizado, claro!) que tem dado o encerramento de balcões da Caixa Geral de Depósitos na região é, antes de mais, um simbólico retrato dos serviços no Interior. As queixas esparsas que se ouvem, as invasões pacíficas das agências, a indignação que vaza para as ruas são fragmentos do desespero que reina quando se constata que até “o sítio onde se levanta o dinheiro da reforma” se “vai embora”. Pois vai, como foram as escolas, os transportes públicos, os postos de correios, as juntas de freguesia…

E depois dos balcões da Caixa Geral de Depósitos, outros serviços partirão do já pouco que resta nos territórios de “baixa densidade”, um bonito eufemismo para territórios em modo de sobrevivência.

Neste contexto não são relevantes as razões e as justificações dos encerramentos das agências, cujos critérios, de resto, ainda não se perceberam. O que é relevante é a dinâmica que está em curso há longas décadas no território. E essa é evidente: A estrutura demográfica da região é o nosso real problema; o indutor de todos os lamentos decorrentes de um processo a que muitos, erradamente, apelidam de “desertificação”.

A escassez de população e o elevado envelhecimento das pirâmides etárias dos concelhos da Beira Interior são os fatores que nos trouxeram até aqui e aqueles que nos vão manter nesta condição de subalternidade perante esta avassaladora onda. Que melhor justificativo há do que aquele que diz que onde não há gente, não há serviços?

Não há gente, logo, não há mão-de-obra, nem potencial de rentabilidade dos negócios. Junte-se a falta de capacidade reivindicativa e de exposição mediática. A única questão que resta clarificar é se perante esta fragilidade, os poderes públicos devem comportar-se como os agentes privados, regendo-se na base da procura da oferta, ou se cumprem a obrigação de não deixar um vasto território cair num estado de pré-colapso social e económico.

Na Beira Interior elegem-se apenas oito deputados para a Assembleia da República. A razão para isto é apenas uma: somos cada vez menos. A nossa capacidade reivindicativa esvai-se à medida em que diminui a população no território, na exata escala de três mil pessoas por ano. Em 2021, com a publicação do novo Censos, teremos as mesmas notícias – isto se não forem ainda piores. Mais escolas encerrarão, mais serviços fecharão pela suposta falta de quem se sirva deles. É este o processo em que vivemos há muitas décadas e desenganem-se as mentes que acreditam que chegará o dia em que, misteriosamente, tudo isto se reverterá e que começarão a florescer por essas vilas e aldeias escolas, postos de saúde, agências de bancos e sabe-se lá mais o quê.

E, já agora, para além das autarquias onde as agências da Caixa Geral de Depósitos estão ameaçadas pelo encerramento e de uma tomada de posição da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, alguém, sequer, tentou dar publicamente – e incondicionalmente – a mão ao vizinhos para ampliar o eco do desespero? Poucos e divididos: Eis combinação perfeita para acelerarmos o passo rumo ao abismo.