InícioOpiniãoCumprir o papel

Cumprir o papel

Nuno Francisco

AS PREOCUPAÇÕES latentes na espuma dos dias deixam-nos, tantas vezes, sem espaço de manobra para nos focarmos na essência das questões. Bem-vindos à rotina da torrente de estímulos que desfilam ao ritmo do rápido movimento do dedo pelo ecrã do smartphone, a cultura das headlines, onde se toma consciência do mundo pelos títulos das notícias, tantas delas oriundas de fontes duvidosas; o repassar da informação sem a ler, sem a digerir, sem refletir sobre o que se lê, e, mais grave, sem se questionar as causas do que se lê – isto quando se lê.

A era do excesso de estímulos informativos, alguns deles alimentados por órgãos de comunicação social transvestidos de meros repassadores de notas de imprensa despejadas ipsis verbis na rede, sem qualquer valor acrescentado, sem critério, porque se julga que se o expositor informativo é virtualmente ilimitado, então, o consumidor que escolha entre tudo o que é despejado na rede.

Para além de este ser um papel inócuo, leva-nos para caminhos perigosos para o próprio jornalismo. Porque o bom e o mau, o relevante e o irrelevante; a criatividade e a preguiça; o talento vívido e contagiante e a sonsa resignação; a competência e a incompetência passam a ter a mesma medida valorativa, a mesma relevância para nós e para os outros. E esse não é o papel que os jornalistas devam assumir e, já agora, também não é papel a que os consumidores de informação se queiram sujeitar.

Aliás, o papel do jornalismo e dos jornalistas tem surgido, nos últimos anos, na primeira linha de discussão num combate que vai bem para além do clássico gatekeeping. Hoje, mais do que nunca, discute-se a responsabilidade social que cabe aos órgãos de comunicação social e aos jornalistas. E uma das grandes incumbências que nos são assacadas – e bem– é precisamente a de garantir, nesta torrente, a inequívoca qualidade da informação; pontos de inquestionável referência da veracidade, relevância e qualidade da informação que é colocada no domínio público.

Mais: é da nossa absoluta responsabilidade dar um contributo fundamental para a qualidade do debate público e não ficar a navegar na espuma dos dias, saltando de polémica espúria em polémica espúria, com a validade a expirar no próximo post. E o segredo nem sequer é dos mais bem guardados: As marcas de referência da imprensa regional, nacional e internacional são, hoje, parte desses abrigos referenciais. O histórico New York Times é o New York Times na sua tradicional edição em papel, mas também o é no site e nas redes sociais. A credibilidade do título não é afetada quando se muda de vaso comunicante. O relevo da marca jornalística é a força distintiva e determinante por entre as vagas de incerteza, do boato, das pseudonotícias e das “fake news”.

O jornalismo, o bom jornalismo, é uma necessidade absoluta das sociedades democráticas, pelas tradicionais e pelas novas e prementes razões. O que todos teremos que compreender é que a cultura da gratuitidade subjacente à “informação” a desfilar pelo ecrã algum dia irá esbarrar nesta necessidade. Aliás, já está a acontecer. E aqui há uma incompatibilidade de fundo. Para todos. Até porque a escolha é razoavelmente simples: Ou se querem jornais como repositórios de notas de imprensa e derivados ou se querem jornais a cumprir o seu papel.