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Consciência e avaliação

Gabriel Magalhães

A CONSCIÊNCIA é a nossa capacidade íntima de sabermos aquilo que é bom, aquilo que é justo. Portanto, trata-se de um sol que nos ilumina por dentro, e é a sua luz que nos permite discernir, em cada momento, qual o caminho mais correto a seguir. Não há rumos absolutamente certos, claro, mas existe sempre uma rota mais cintilante. Um horizonte que dá paz ao nosso coração quando para ele nos dirigimos.
Os países, as culturas também possuem uma consciência. Portanto, esta dá vida aos indivíduos, mas alumia igualmente as coletividades. Nos atos eleitorais, por exemplo, revela-se o estado da consciência de uma nação. Uma das belezas da democracia consiste em acreditar no valor dessa alquimia privada que dá origem às decisões tomadas por cada cidadão e expressas no voto. Umas eleições são milhares, milhões de consciências de mãos dadas.
Há já algumas décadas que, no Ocidente, estamos a deixar a consciência para trás. Fazer aquilo que é bom, que é justo, foi substituído por fazer aquilo que me convém, aquilo que me apetece. O nosso senso ético vê-se substituído pelo leque dos nossos instintos. Desde então, os nossos países vão ficando mais turvos – e mais pobres. Cada homem que segue o trilho estreito do seu egoísmo não chegará nunca ao belo indivíduo que poderia vir a ser.
Os poderes públicos aperceberam-se de que esta é uma das raízes mais profundas da nossa presente crise. Mas, em vez de tentarem recriar a consciência individual e a coletiva, esses preciosos diamantes que dão tanto trabalho a lapidar, resolveram apostar na avaliação, como se esta pudesse ser uma consciência sobresselente. Avaliam-se funcionários, avaliam-se empresas, avaliam-se países.
Estes processos avaliativos, que alastram por todo o lado, são um indício do grande vácuo moral que vai na alma de governantes e governados. Contudo, o pior é que não enchem esse vazio, mas apenas lhe põem um remendo. A consciência exterior promovida pela avaliação nunca terá a mesma energia implacável da nossa consciência interior. O esperável é que gere sobretudo comportamentos convencionais: sem chama nem criatividade. De facto, uma sociedade que se avalia em permanência é um grupo humano que se sabe apodrecido por dentro, revelando-se, ao mesmo tempo, incapaz de dar com o antibiótico ético que curaria essa infeção.
Também na UBI somos avaliados: é a lei que a isso nos obriga. E eu quero manifestar aqui a minha admiração pelos colegas que muito se esforçam para que esse processo seja o mais justo possível. Deixem-me, porém, acrescentar: quando o trâmite avaliativo se conclui, esqueçamos todas aquelas tabelas algo doentias, com as suas percentagens, os seus ratios. Dediquemo-nos, em vez disso, a cultivar em plena liberdade a nossa consciência, que é o espelho onde se reflete a grande aventura da nossa biografia. De facto, cada pessoa dotada dessa biblioteca íntima de valores, reflexões e memórias que formam uma consciência, lembra uma casa com jardim, agradável para quem nela mora e para quem a visita.