InícioOpiniãoBichos e bailias, numa espécie de paraíso…

Bichos e bailias, numa espécie de paraíso…

Antonieta garcia

Maria Antonieta Garcia

Na serra, as noites muito frias oferecem uma longa experiência de fraternidade. É certo que as agulhas dos pinheiros sopram endiabradas a mover mistérios e alvoroçar misérias, arreganhando corpo e alma. Mas também se vê e ouve o vento a saltar nos ramos das árvores despidas, enlouquecendo a urze branca, os botões das camélias e o mato rasteiro… Entre todos ciciam segredos do começo do mundo, inebriados com o marulhar de uma ribeira que segue a batuta do chapim-azul feito maestro vanguardista. Mexe-se freneticamente e, de barrete azul, dirige e canta, canta, canta que é um regalo!

Doem os pezitos a clamar gelos acumulados que se tornaram dentes de cão. Aves noturnas compõem uma sonata gélida e grilos brancos enrouquecidos trilam sem a mestria dos irmãos do verão. Na rua, o frio (meu Deus, que frio!) enregela! Como furtar os corpos ao rigor da invernia?

Noites longas, temíveis. No cimo da Gardunha, o nevoeiro corta-se à faca.

– Nuvem, nuvem, nevoeiro

Vai para trás daquele outeiro!

Palavras mágicas, à imagem do “Faça-se luz!” divino, sete vezes ditas, sete vezes repetidas, para afastar nuvens espessas a forrar tudo de cinzento… O sagrado da palavra não se eclipsa. Queríamos ver e imaginávamos nuvens divertidas a deslizarem no céu de veludo escuro, desenhando faces que ora riam brincalhonas, ora se zangavam com nariz de palmo… Desapareceram? Na era dos videojogos, quem repara nelas?

Também aqui, na serra da Gardunha, em coexistência pacífica com gelos, vivem agora, uns esquilitos mais vermelhos uns, do que outros, com o ventre quase branco. Lindos! O cobertor peludo espessa-se na cauda a proteger do frio, a aquecer. Já os viram? “Voam” de árvore em árvore e, quando se assustam, com presenças que consideram indesejáveis, assanham-se coléricos. Têm razão. Nunca se sabe se a criatura que assoma é ou não um predador do piorio. O açor, por exemplo, não perdoa. Se os vê, adeus vida! No chão, são as raposas, os gatos… e alguns homens que invejam a pele protetora e sabe-se lá mais o quê! Abatem-nos sem alma nem coração. Contas feitas, nada que chegue às alturas, ao ciminho das árvores para viver em segurança. Só a busca de alimento os faz descer ao solo. São pitéu, as pinhas, bolotas, nozes, avelãs… Mas não se fazem rogados a outra fruta ou a insetos, minhocas, cogumelos, raízes, cascas de árvores, flores e até a ovos roubados do ninho de aves.

Há tempos, um mais distraído, ou mais confiante, voejava eufórico, pela copa das árvores, em acrobacias fantásticas! Lá de cima, viu uma noz, desceu, pegou-lhe com elegância, meteu-lhe o dente criteriosamente, e sugou satisfeito o miolo. Mesmo sentada, quietinha, a fazer durar o prazer da cena, acabou por me descobrir… Aproximei-me. Não gostou e, pequenino, atreveu-se a bazofiar com ar malvado, a soprar feio, a armar ao valente… antes de fugir a sete pés. Ri-me: – Olha-me este!

São estes afetos da serra que aliviam o Inverno. Nas noites longas, de frio doido, os mais idosos podem até maldizer o tempo em que a neve não era bonita. “Magoava. Lembro-me que meu Pai, tinha eu uns nove anos, mandava-me de manhãzinha sacudir os ramos das oliveiras para não partirem; os nevões faziam medo! Nada como agora! A neve era tanta que para sairmos de casa, tínhamos de a arredar com pás. Na quinta, à noite, os pinheiros quebravam com a força da neve. Naquele silêncio, pareciam tiros! Eu depois de abanar as oliveiras, no regresso a casa, só pensava numa bacia de água quente! Não tenho boas recordações. Os agasalhos também não eram como agora! Calçávamos umas botitas… Galochas, que é delas? Nem kispos, nem coisa nenhuma. Éramos rijos! A gente de hoje queixa-se, queixa-se… mas nem sabe o que é o frio.”

Tristezas que se cruzam e confrontam com as boas lembranças dos harmónios e realejos que atraíam pares de jovens para bailias do amor. Oh! Que linda troca de olhos acontecia, os corpos vivos a acertar o passo no baile mandado. “Antigamente as ruas estavam cheias. Era outra vida!” Ao lume da memória, estas conversas, desentranham o bem e o mal, a argúcia e a força da vida…

Ora, nesta alvorada de 2017, de discursos assanhados e assustadores de trampolineiros com trampolins suficientes para fazer regredir o mundo, criaturas que menosprezam (odeiam?) quem não seja americano puro-sangue, que inventam muros e fronteiras antecâmaras de velhas tormentas… salvem-se memórias de bichos e bailias e o saber de gente serrana que sonha oferecer aos que vêm por bem “uma porta aberta, uma mesa posta e uma cama feita”… uma espécie de paraíso de medida humana!