InícioOpiniãoO beirão e a obsessão de persistir

O beirão e a obsessão de persistir

José Páscoa

As crises sucedem-se por todos os lados mas o beirão continua aqui, tenazmente agarrado ao pedaço de terra que vai do Douro ao Tejo. Ainda que todos os outros desistam deste território ele continua a acreditar nele como futuro, a sua fé de tantos séculos é inabalável.

Após a crise demográfica, que dizimou as populações, veio a crise económica que pretendia promover o encerramento definitivo do território. Fica por saber o que pretendem fazer dele, se um buraco negro sem vivalma, ou se o querem alienar ao desbarato. É estranho que, enquanto o governo de Portugal move influências nas Nações Unidas para alargar o território marítimo nacional, parece interessar-se pouco por este território que já detém. Em Espanha o governo central tenta manter a unidade do país, contra os desejos de independência de catalães e de outras províncias. Investindo mais no desenvolvimento, o estado espanhol conseguiu que na sua Extremadura o número de habitantes tenha crescido nos últimos anos.

Em contraste, na Beira Interior o governo central retira os símbolos do poder do estado sem qualquer preocupação. Não há qualquer guarnição militar no território que engloba os distritos de Castelo Branco e Guarda. A mais próxima será Viseu, ou Abrantes. Já Espanha, em Cáceres tem um Batalhão e em Badajoz uma Brigada. Não se trata sequer de pequenos Regimentos, são unidades militares com dimensão significativa que promovem a economia local.

Os próprios tribunais, também eles símbolos do estado, foram abandonando o território, como todos sabemos. Com a queda demográfica as Juntas de Freguesia lá foram sendo agregadas, unidas e marteladas. E, pelo desenrolar da demografia, daqui a uns anos assistiremos à fundição dos Concelhos que sobrarem. O estado central desistiu do território da Beira Interior também na saúde, o Hospital Central mais próximo é em Viseu. Para promover a união do estado, Espanha segue uma política de não cobrar portagens nas autoestradas, aqui o Estado Português continua a drenar os automobilistas.

Já só há patriotas na Beira Interior. São estes que, apesar de maltratados, continuam a dizer que aqui é Portugal. Bruxelas manda os fundos comunitários para o desenvolvimento do interior do país, e o estado nacional desvia-os para o litoral. Os números são avassaladores, até agora a Beira Interior recebeu apenas 10 por cento dos fundos comunitários que foram dados ao eixo Leiria-Coimbra-Aveiro. Este eixo, se o seu PIB não fizesse média com o da Beira Interior, pelas regras em vigor já não teria sequer direito a receber 1 único euro de fundos comunitários. Portanto, a Beira Interior acabou de dar 423 milhões de euros ao eixo Leiria-Coimbra-Aveiro, apenas nos últimos três anos.

A persistência é aqui associada com o insistir naquilo que vale a pena, no desenvolvimento deste nosso território. É diferente da teimosia, que corresponde a insistir naquilo que não vale a pena e é sem valor. A perseverança é diferente da obsessão, tem um carácter mais poderoso e nobre. O beirão não tem a obsessão de persistir, mas é perseverante e persistente. Ele é um dos últimos a acreditar que a Beira Interior pode continuar a ser Portugal. O beirão é um patriota assumido.

O Código Penal, no seu Artº 308, pune com 10 a 20 anos de prisão quem, por abuso de funções de soberania (governantes incluídos), intentar ações que visem separar Portugal de parte do seu território. Em Espanha, o Código Penal impõem no seu Artº 548 uma pena de prisão de 10 a 15 anos para quem tiver comportamentos similares. Com um Código Penal menos duro, em Espanha os dirigentes do estado procuram manter a unidade do país, gerindo os dinheiros públicos de modo a favorecer os territórios menos desenvolvidos. Mas até neste aspeto o beirão tem sido um cavalheiro, pois não se conhece quem tenha sido julgado ou condenado por tal crime, apesar do abandono a que o interior tem sido votado.

Afortunadamente o estado central parece estar a arrepiar caminho. Recentemente foi anunciada a disponibilização de 45 milhões de euros, de fundos comunitários, para ajudar a lidar com as consequências dos incêndios e revitalizar a economia local. No entanto, é estranho que isto corresponda a cerca de 10 por cento do valor de 423 milhões de euros que a Beira Interior foi forçada a dispensar ao eixo Leiria-Coimbra-Aveiro. Continuam a olhar para nós com cara de 10 por cento, felizmente ainda temos o Artº 308 do Código Penal.