InícioOpiniãoA Beira Interior e os ventos de alforria

A Beira Interior e os ventos de alforria

Maria Antonieta Garcia

COM a Primavera abre a cor no reino verde da Gardunha. Este ano, já deu ares da sua graça mas, às vezes, recua nauseada com frases tipo Trump-Janusz Korwin-Mikk-Dijsselbloem. Desventurada, viu-se neste sul da Europa protagonista de filmes cujo argumento sabe a bolor e, acreditava-se, estava fora do espectro da moral vigente no espaço europeu. Que é do desejo de habitar o mundo com o sonho humano de fraternidade? Por onde e como se perdem as senhas do futuro?

E o vento e o frio vão alternando, mesmo que o sol, quando se mostra, seja mais quente, mais luminoso. Em demanda de ventura dos dias, da luz, é a hora dos namorados proclamarem paixões descabeçadas – eu sei, se não fossem descabeçadas não eram paixões! -. Numa rotunda, no Fundão, alguém escreveu em letras garrafais: “Faz as malas, fugimos hoje”. Decisão corajosa proclamada aos sete ventos. Resultou? Quando era o hoje? O/a destinatária apareceu? Um caso de amor romântico com fugas e tudo?

E aquele outro grafito (escrito por ele ou por ela?) noutra parede da cidade, que grita ruidosamente uma arrebatada declaração: “O amor não é nada sem ti!”. Pois “que seja infinito enquanto dura”, como quer Vinícius de Moraes.

É a Primavera! E que linda troca de olhos… habitou naquele parzinho! Entraram, de mãos dadas, na loja de chocolates. Estão felizes. Pedem dois corações. Um para cada um: dois! Sorriem. Trocam e saboreiam devagarinho o coração um do outro. Reparam que havia gente encantada que os contemplava. No que figurava ser a inauguração do namoro, abrigava-os, acreditavam, uma campânula protetora. Descobrem que não é assim. Baixam os olhos. Envergonham-se? Saem. De mãos dadas. Permutam os corações, mordiscam-nos. Nos lábios misturam-se gotículas doces do bombom. São pequeninos os corações de chocolate, mas no coração dele e dela cabe todo o amor do mundo. Afastam-se, senhores de uma felicidade de abril, luminosa. Sonham e trauteiam o sentido da vida numa música que é dos dois.

A Primavera é esplendorosa. A Beira, saudosa dos tons vermelhos de alvorada espera-a como menina garrida, em desafio aos arquitetos de moldes de despertar, a vaguear com Eros, deus do amor. Para o cenário da festa, já pediu ao sol para abrir a esteva ou cinco-chagas; às roselhas aconselhou que se vistam de rosa forte, a pedir meças às rosas de jardim; as campainhas ou bole-bole-maior enfeitiçam o ar, se a brisa sopra e refresca; chocalheiras seguem o vento por todo o lado, e esquadrinham vidas sem segredos, nem silêncios; os malmequeres decifram os graus de amor em muito, pouco, nada…

Para o festim, aprontaram-se os pardais, finos, em traje de cerimónia; usam colar preto e sedutores sublinham os olhos com a mesma cor; tímidos e nervosos os rabirruivos, conhecidos também como carvoeiros, trajam vaidosos a cauda cor de fogo, fazem-na vibrar na coreografia; as andorinhas, penas pretas ao de cima, e brancas no inferior do corpo, estimulam cânticos e loas. E os pombos arrastam a asa ao par e debicam bem-querer no bico aberto. Não faltam maestros mais que perfeitos da sinfonia, no reino do verde: melros e pintassilgos. O sussurro do vento na folhagem alvoroça expressões de franqueza dos enamorados da festa serrana. A Gardunha ama estes sons, as cores, as árvores, as flores. Tão airosa, desenxovalhada, tão bonita e tão só…

Porque partiu tanta gente para tantos destinos, para tão longe? Nascida na aldeia, a Beira temperou a palavra com o sal da terra e da tradição. Resiste como pode. Enferma de alma ainda renasce na Primavera, menina e moça. E por aqui anda refugiada nos braços de uns loucos que não ousam o adeus. Muitos voltam, quando podem, e partem. A saudade dos pitéus, da boa água e do ar puro, das casas e capelinhas aninhadas nos outeiros dói! Que outros bodos consagraremos ao “Mártle” São Sebastião para operar milagres de afastamento de pragas?

As Serras da Gardunha e da Estrela são berço e raiz de um mundo de afetos, mas esta história de amor foi interrompida. Tinha razão Gil Vicente, quando no século XVI, no Auto da Festa, Joanafonso se queixa esclarecendo: Isto deve ser rascão/ ou eu sei pouco da feira, / porque tem tão má nação; / que nunca fazem senão / zombar da gente da Beira.
Zombam, pois! A Beira mortifica-se aturando pressões de quem tem vistas curtas e lentes estouvadas. Sofre de silêncio e solidão. Espera pela Primavera, pelo Verão esconjurando ausências. Mas a Beira tão menina, tão desenxovalhada e tão viúva… pode lá morrer, almas da governação…