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As primeiras chuvas e a memória

Nuno Francisco

Chuva alguma levará com ela a memória de um Interior desolado por mais uma grave vaga de incêndios que deixou marcas que se vão prolongar por décadas. Na paisagem, na economia, no ânimo e no coração de alguns milhares de pessoas que por estas terras às portas do abandono tiveram que ir buscar forças onde pensavam que já não existiam para enfrentar novamente o fogo e, agora, para arcar com as graves e duradouras consequências do mesmo. Por mais relatos que se escrevam e narrativas que se desenhem para ilustrar tanta tragédia, só quem está exposto ciclicamente a tudo isto, a somar a todos os outros constrangimentos da tal interioridade que não se vê, mas que se sente, é que sabe com que linhas se cose este quotidiano. Só quem o vive é que sabe quão difícil é suportar tudo isto; só quem sente isto na pele é que sabe quão difícil é encontrar uma tonalidade de esperança por entre tanta cinza.

O território que é, há décadas, pasto de incêndios é o mesmo território que continua a sangrar demograficamente rumo à irrelevância. É o mesmo território que os persistentes movimentos migratórios levaram à fragilidade num país em que a população se acotovela no Litoral enquanto vê quase tudo o resto a ser pasto das chamas que galgam as serranias expostas ao acaso que o abandono ditou. É o mesmo território que chora e que se lamenta enquanto assiste, mais uma vez, à tentação da pequena política como resposta a tudo isto. À política que não entende – ou não quer entender – que esta é mais uma causa de um desequilíbrio estrutural que não é de hoje, nem de ontem.

Aqui há responsabilidades para distribuir por aqueles e aquelas que durante longas décadas acharam normal que dois terços do território estivessem à mercê da marcha do despovoamento e das suas nefastas consequências; há culpas de quem, não sabendo como mitigar o fenómeno, não impôs as ferramentas legais e financeiras para que os territórios fragilizados pudessem lidar com estas graves especificidades. E há muitas responsabilidades para distribuir a quem julgou que fechar mais uma escola ou um outro serviço público de proximidade no Interior não faria falta nenhuma, numa ridícula justificação de poupança que apenas contribuiu para dar mais uma estocada num corpo frágil. Há muito para se falar nesta adição de um país à centralização, à gestão de quase tudo a partir de Lisboa.

Lamentamos, mas o país não é todo igual e as especificidades devem ser tratadas como tal. O verão de 2017 é mais uma triste consequência de uma enxurrada de más decisões e omissões. Almeida Garrett perguntou, em tempos, algo como isto: “Quantos pobres são necessários para fazer um rico?” Agora, perguntamos quantos erros, omissões e desresponsabilizações na gestão do território foram necessários para chegarmos até aqui? A edição de terça-feira do britânico Financial Times olha para tudo isto e constata aquilo que há muito sublinhamos. O jornal escreve, a propósito dos incêndios em Portugal, que “as feridas expostas pelo desastre e infligidas por décadas de negligência, êxodo rural e afastamento do poder político não podem ser curadas apenas com a ajuda [ondas de solidariedade lançadas depois dos fogos, como apoios do Governo e doações]”. Talvez com isto escrito em Inglês, alguns consigam compreender melhor a absoluta gravidade da situação.