InícioOpiniãoAs dimensões ocultas da realidade

As dimensões ocultas da realidade

Nuno Francisco

NÃO deixa de ser surpreendente a facilidade com que nos entretemos com fait-divers, em torno de pequenos nadas que todos somados nos projetam para o irremediável vazio. Ao que parece, há quem não se importe de navegar nessa rota sem destino ou propósito certo, entretido, por exemplo, em questionar sobre quantas vezes aparecem em artigos de jornal, quantas vezes é que o seu precioso nome aparece em cada parágrafo, não por relevo de ação ou de propósito em função da comunidade, mas porque sim, tudo devidamente suportado cientificamente numa pessoalíssima análise quantitativa dos conteúdos, com tudo muito bem alinhadinho e contadinho linha a linha, ponto final a ponto final. No fim de tudo fica apenas um enorme ponto de interrogação: Será mesmo possível que alguém ainda acredite que isso adianta alguma coisa?

Entretanto, e enquanto se viaja alegremente neste derivado de realidade paralela, o mundo, claro, avança impiedosamente sobre nós, carregando quem vive na dita realidade de outras preocupações que não as da análise de conteúdo e das teorias da conspiração. As grandes preocupações que atormentam os comuns mortais, nomeadamente aqueles que ainda vivem nesta região, traduzem-se em linhas bastante vincadas. Uma delas é esta: como evitar a tendência de declínio demográfico e económico?

Não parece ser coisa de somenos quando estamos a falar da viabilidade de um território que é o nosso. Ou nos entregamos definitivamente à tese da candura de uma geografia reservada para retiros de fim de semana, ideal para um belíssimo fim de semana no regaço do silêncio e do bucolismo da natureza ou tentamos com os meios que temos (que são escassos) lançar a mão a um projeto de enorme amplitude e audácia que é o de garantirmos – todos –, no terreno, a criação de condições para que o futuro não seja apenas a confirmação dos perigosos indícios que temos em mão. E isso passa sempre pela criação de condições para o emprego sustentável.

Talvez não seja preocupante para muitos que mais de metade dos municípios da vasta região da Beira Interior tenham já menos de dez mil eleitores (!); talvez não sejam preocupantes as conclusões que o estudo Demospin nos trouxe e que nos indicam que dentro em pouco estaremos perante o risco real de sermos tão poucos e envelhecidos que nem sequer teremos mão de obra suficiente para o pouco trabalho que possa haver. E como também não parece afligir muitos o facto da Beira Interior estar a perder uma média de três mil habitantes por ano. Ainda nos continuamos a despedir de amigos e familiares que rumam a outras paragens em busca de melhores dias.

Tantas vezes somos alertados, tantas vezes nos sentimos assustados com os números que nos anunciam o caminho para patamares irremediáveis de recuperação económica e demográfica, mas a atenção, a bendita atenção, dispersa-se sempre tão facilmente por pseudo-factos. É sobre estas questões que deveríamos despender tempo e energia. Porque todos podemos dizer que procuramos o bem comum. O problema é quando a realidade entra em colisão com os enunciados teóricos e nos obriga a partir para a ação em ambiente adverso. E é aí que se vê o que a palavra de cada um vale.