InícioOpiniãoAs autárquicas, a demografia e as redes sociais

As autárquicas, a demografia e as redes sociais

Miguel Nascimento

Desde há muito afirmo que a demografia é um dos maiores problemas políticos do nosso tempo. As consequências estão aí à vista de todos. O território interior vai-se desertificando num processo continuado, apesar de todas as esperanças que pairam no horizonte. Nas próximas eleições autárquicas mo distrito de Castelo Branco nenhum concelho terá mais do que 7 eleitos em disputa (Presidente + 6 vereadores). Isso significa que nenhum concelho ultrapassa, de momento, a mítica fasquia dos 50.000 eleitores.

Nas últimas eleições para a Assembleia da República perdemos um representante no distrito. Estamos agora representados apenas por 4 deputados. Por outro lado, a falta de pessoas contribui para que diminua também o número de cidadãos que se interessam pela política e pelas dinâmicas eleitorais da sua comunidade. Acaba por ser uma questão natural e uma consequência da crise demográfica que temos vindo a atravessar desde há muitos anos.

Nas vilas e cidades esta questão é mitigada pelo movimento urbano. Os partidos e os grupos de cidadãos independentes ainda têm capacidade para apresentarem listas alternativas e projectos diferenciados que permitem um leque de escolhas aos cidadãos-eleitores. Mas, nas juntas e assembleias de freguesia, principalmente as que se situam nas zonas de maior ruralidade, as coisas começam a complicar-se. Em muitas localidades só há espaço para uma lista. Não há gente para constituir uma lista alternativa.

Nos locais onde se apresenta só uma lista há, desde logo, um vencedor antecipado. Dispensa-se o debate e o contraditório. E o mandato seguinte ficará sem monitorização da oposição porque ela não existe, não por questões ideológicas ou outras, mas, simplesmente, porque não há gente. Nos casos em que vai havendo gente para distribuir por duas listas há resistências à participação porque, em muitos casos, é preciso separar famílias e gente que partilha relações de boa vizinhança e de amizade há muitos e muitos anos. E quando a temperatura da campanha sobe surgem, por vezes, conflitos que rapidamente passam de afirmações políticas a problemas de natureza pessoal.

Muitos não estão para isso e não participam. Sem gente a democracia vai-se enfraquecendo. E este é mais um sinal dos tempos que vivemos neste Interior que, infelizmente, vai morrendo lentamente apesar de todas as boas vontades.
Noutra perspectiva, as redes sociais vieram para ficar nas campanhas eleitorais. Na actualidade, uma fotografia, uma mensagem ou um vídeo publicado nas redes socias têm um alcance muito superior ao dos folhetos, cartazes e brindes que ainda há poucos anos eram distribuídos, casa a casa, com grande intensidade.

Hoje, cada pessoa, ao ter acesso às modernas tecnologias da informação e comunicação, pode, em liberdade, publicar o que entender e fazer os comentários achar mais apropriados e, naturalmente, formular os juízos de valor que entender. É a liberdade e a democracia na sua plenitude. No fundo, cada cidadão tem ao seu alcance uma plataforma de comunicação que pode usar como entender, com ou sem assinatura.

No primeiro caso todos assumem o que publicam mas como não se podem socorrer de um conselho de redacção o que é publicado só pode ser monitorizado pelo bom senso. E como às vezes ele não impera surgem os problemas e suas consequências.

Depois há os outros que a partir da blogosfera de ninguém apontam aos seus alvos e disparam com tudo o que têm à mão. Não têm contraditório porque não têm rosto. Disparam atrás dos arbustos. Mas esses merecem o nosso veemente repúdio na medida em que a liberdade deve sempre coincidir com responsabilidade.

As plataformas de comunicação e as redes sociais podem ajudar os candidatos e as respectivas campanhas, fazendo chegar a mensagem política, os programas e as dinâmicas de grupo aos cidadãos-eleitores, com mais eficácia e menos custos. É preciso apenas que o respeito impere e que o confronto de ideias e projectos sejam a seiva que alimenta a democracia, mobilizando os cidadãos para a participação activa. O nosso território precisa, mais do que nunca, de uma participação alargada para ganhar força. E, sobretudo, de ganhar futuro.