InícioOpiniãoPapel, o fiel guardião da memória

Papel, o fiel guardião da memória

Paulo Duarte

O desaparecimento recente de influentes personalidades nacionais e internacionais, de vários quadrantes, inspirou-me para uma reflexão sobre a importância da preservação da memória individual e coletiva e dos recursos para a efetuar.

Vivemos hoje num contexto em que a atenção está, quase exclusivamente, focada no armazenamento digital das memórias independentemente da sua natureza. A transição do suporte físico, em papel, para o digital foi desde o início recebida com enorme euforia pois simbolizava a libertação da ditadura do papel. As causas para este entusiasmo são variadas. O papel é caro, pesado, pouco amigo do ambiente, limitado em termos de capacidade, dispendioso em termos de armazenamento e exige cuidado no manuseamento e conservação, já que se degrada facilmente em ambientes adversos. Vaticinou-se então, de forma apressada e precoce, que o arquivo digital iria rapidamente ditar o desaparecimento do suporte físico em papel.

Contudo, contrariamente ao esperado tal não aconteceu. Um caso interessante é o do mercado livreiro, pois as vendas de livros impressos têm crescido de forma consistente, enquanto os vendas dos livros digitais (e-books), apesar de terem igualmente crescido parecem estar a estagnar, representando entre 20% a 25% do mercado global. Na verdade, o arquivo digital continua a apresentar alguns inconvenientes, nomeadamente a intangibilidade dos conteúdos e as limitações e compatibilidades dos suportes.

Quem ainda se recorda dos velhinhos leitores de cassetes? E dos minidisk? E das cassetes de vídeo? E dos discos de vinil? No domínio informático onde param as velhinhas disquetes de 5 “ ¼ e as suas irmãs mais novas (e pequenas) de 3” ½? Atualmente nenhum computador incorpora já leitores para este tipo suporte, pelo que se coloca a questão de saber como aceder aos dados neles armazenados. Até os mais recentes leitores para CD e DVD estão hoje ausentes da maioria de equipamentos.

E as fotografias? Dos antigos rolos de pelicula, com capacidade para 12, 24 e 36 fotos, passámos para os cartões de memória com capacidade para milhares de imagens. Se a evolução foi positiva por ter contribuído para que as pessoas se soltassem de velhas amarras e dessem liberdade à vontade de registar tudo (várias vezes para não correrem o risco de perderem alguma memória verdadeiramente histórica), esta veio igualmente criar um novo conjunto de problemas. É que no digital os suportes não param de evoluir sendo sempre incerto que formato se seguirá.

A questão vital é saber como assegurar a preservação das memórias individuais e coletivas para as gerações vindouras e o que fazer ou como garantir o acesso aos suportes antigos. É claro que, como para quase tudo, existe uma solução e neste caso ela chama-se papel. O suporte universal que não está dependente de leitores, de formatos, da evolução tecnológica ou outra. Um suporte que acompanha a humanidade desde, pelo menos, o Século II A.C. e que embora tenha ele também evoluído nunca o seu progresso colocou em causa a sua usabilidade.

Afinal, a anunciada morte do papel talvez não passe de uma miragem resultado do receio da indústria tecnológica ciente das suas próprias limitações e debilidades. Seguro, fiel e confiável, assim vai continuar o papel. Na realidade ele é o suporte mais seguro que alguma vez existiu e provavelmente assim se manterá, para a salvação da memória da humanidade.

Por isso dêmos vivas ao papel. Longa vida ao papel!lo Duarte