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A anatomia do medo

Nuno Francisco

NÃO deveríamos deixar passar em claro a entrevista que o comissário europeu dos Direitos Humanos Nils Muiznieks deu ao Público. Isto por duas razões complementares: a primeira, porque o que ele diz na edição de terça-feira deste diário, deveria ser demasiado óbvio para ainda se estar, em 2017, a ter que o propagar.

O óbvio, por definição, deveria dispensar repetição ou insistência, porque é um dado adquirido, natural e presente no nosso quotidiano. Mas quando temos que insistir nas tais virtudes do óbvio é sinal que algo está profundamente errado. E daí decorre uma genuína preocupação: Porque é que em 2017 se tem que andar a sublinhar, num baile de aflitos, noções tão básicas como a garantia das liberdades.

Tudo o que o comissário Nils Muiznieks diz na entrevista é verdade, verdades absolutas sobre direitos absolutos. Tudo isto ainda é mais triste quando estamos a falar de uma Europa que anda entretida em desenterrar velhos e anquilosados fantasmas.

Nesta mesma Europa que alimenta eleitoralmente os discursos populistas de Marine Le Pen, emFrança, de Geert Wilders, na Holanda, Viktor Orbán, na Hungria, ou de Robert Fico na Eslováquia.Nesta mesma Europa pós- Brexit que caminha para se transformar numa velha e decadente caricatura daquilo que um dia foi, mesmo com todas a imperfeições: Um projeto político comum, uma Europa onde um comissário europeu dos Direitos Humanos não tinha que andar a alertar para o óbvio.

O medo sempre foi o principal indutor da escalada populista que aponta caminhos irreais para os complexos fatores que determinam a convivência entre os povos e as nações. O medo de perder o emprego, o medo da pobreza, a insegurança, as complexidades alimentadas tantas vezes em roda livre por uma economia que deixa, no seu rasto, demasiados danos colaterais.

Uma economia que deixa um rasto de empregos que se extinguem num ponto do globo para se recriarem em noutras geografias onde o preço da mão de obra e dos direitos sociais não são um “fardo” para quem contrata e para quem paga. Todos estes mecanismos, balanços e contrabalanços que promovem a realidade que habitamos não se resolvem com bodes expiatórios. Mas é bem mais fácil seguir o caminho da simplicidade e corporizar todas as complexidades que determinam o andamento deste mundo em alvos visíveis e identificáveis, seja pela cor da pele, seja pela religião, seja pela origem geográfica.

Este caminho da atroz e irreal simplicidade populista é aquele que todos deveriam recusar fazer porque a Europa é, precisamente, a dura prova de que esses trilhos já nos levaram à beira da autodestruição. Mas não. Daí que o comissário europeu dos Direitos Humanos tenha que nos alertar para a questão dos discursos xenófobos ser um problema em diversos países europeus. Nils Muiznieks diz-nos: “Temos uma mistura venenosa. Por um lado continua a haver a incerteza económica, as pessoas continuam preocupadas com os seus empregos, com o seu futuro. Por outro lado, há o medo dos imigrantes, dos refugiados (…) E muitos políticos aproveitam-se desta mistura de medos. Alguns, como é o meu caso, tentam esgrimir os argumentos dos direitos humanos” e, claro “não é fácil”. Ou seja, estamos metidos em grandes sarilhos.