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A alma do mar

Gabriel Magalhães

A Beira Interior é um encantamento – mas também um feitiço. O verbo “encantar”, aqui, conjuga-se nas belas paisagens e nos doces sossegos. O tempo por estas bandas, às vezes, de tão lento que é, parece que vai deter-se para sempre. Nesta atmosfera de Palácio da Bela Adormecida que têm os cenários do interior beirão, podem as existências decorrer como rios: lentas, pacíficas, conhecendo e afeiçoando cada seixo do seu leito. Enfim, nestas paragens, torna-se possível sermos escandalosamente felizes, aproveitando até estas quietudes para trabalhar mais e melhor do que nas efervescências do litoral.

Contudo, quando os anos passam e os filhos crescem, percebemos que a nossa região constitui também um feitiço. As biografias, de tão sossegadas que são, ficam por vezes encurraladas em si mesmas: como que hipnotizadas. Estes quietos horizontes, afinal, são estreitos para as novas vidas que se afirmam no seio da nossa família – e, pouco a pouco, começa a apoderar-se de nós um suave desassossego. Compreendemos que esta região funciona como o quintal das traseiras do país: seremos porventura um lindo pomar, uma arrecadação cheia de coisas antigas e lindas, mas a fachada da nação, a sala de jantar e, sobretudo, o salão nobre estão algures, noutros lados de Portugal.

Passamos, então, a habitar numa penumbra que hesita entre o doce mel luminoso da paisagem, e a sombra dos limites de viver por cá. E não é fácil conservar a lucidez: regar a flor do otimismo, porque há muitas coisas viáveis por estas bandas, e ao mesmo tempo aceitar que existem outras que não passarão do cardo de si próprias.

Mas, quando chega o Verão e as férias, eu apago estas palavras cruzadas de tristeza e de esperança tomando uns banhos de mar que me salvam a vida – e me transformam, de novo, num caderno limpo, em branco, onde tudo poderá ser escrito. Costumamos ir para as praias do Norte, ventosas, com um oceano às vezes desencadeado, cavalgando-se a si próprio. E, logo de manhã, a minha filha e eu vamos ver se há bandeira verde, que para nós constitui uma aparição. Depois, como descrever a maravilha da água gelada a tirar-nos a Covilhã toda do corpo? Aquilo é como se estivéssemos a ser esculpidos por esse grandioso Miguel Ângelo que há no mar, até ele fazer de nós uma estátua do mais puro mármore. Nadamos para longe, a minha filha e eu, e ninguém nos acompanha. A minha esposa vem dar uns gritos de aviso à orla da praia, mas gosto imenso dela: não tenho intenções de a deixar viúva. Simplesmente é preciso mudar a pele toda dos últimos meses nas gélidas vagas do Atlântico: a poção mágica minha e da minha filha. Quando saímos das águas, estamos mais nascidos ou renascidos do que a Vénus de Botticelli, cujo berço foi o Mediterrâneo, um mar bem diferente deste.

Voltámos há semanas para a Covilhã. Mas agora caminhamos rumo aos oásis que por cá existem, sem temermos os desertos que atravessamos, porque trazemos no corpo, ainda, a alma do mar.