InícioOpiniãoAldeias: Ruas de saudade e sementes de gratidão

Aldeias: Ruas de saudade e sementes de gratidão

Nuno Francisco

FECHARAM 445 escolas na Beira Interior nos últimos 15 anos. Não vale a pena lamentar a justiça ou a injustiça de cada um dos casos. Aqui, mais uma vez, foi a fragilidade do território que originou a oportunidade para varrer do mapa mais de quatro centenas de estabelecimentos escolares do primeiro ciclo.

Apesar dos protestos, apesar das lamentações, apesar de tudo, venceu a dura realidade dos dias; a realidade das aldeias semidesertas que apenas preenchem a atualidade enquanto retrato bucólico de um certo país que se esqueceu de existir, exaurido de gente, de esperança; entregando, tantas vezes, o destino à marcante saudade daqueles que partiram. São as ruas da saudade e do silêncio, onde os vultos da memória se entranharam.

O encerramento de escolas não é apenas mais um drama isolado de hoje; é o fim de uma linha contínua de decadência demográfica, o resultado de complexas reconfigurações sociais, que expeliram do interior das aldeias gerações de beirões rumo a outras esperanças que não aquelas que a incerta sobrevivência dos campos tinha para oferecer. E é, sobretudo, um severo aviso para o futuro, esse mesmo futuro que se compromete à medida que cada escola fecha as portas por falta de alunos, num processo de difícil reversão.

É a ditadura da demografia que nos continua a avisar que a irreversibilidade deste processo está aí para muitas aldeias, à medida que as ruas de outrora se tornam meros atalhos para a memória de dias tão pretéritos quanto distantes. E que não haja dúvidas quanto ao destino de muitos povoados por essa Beira: um inexorável caminho para o despovoamento total, para o silêncio eterno que passará a ocupar lugares que já foram nossos.

Não vale a pena – nem é isso que se pretende – alimentar saudosismos estéreis e bacocos. A reconfiguração económica e social do país ditou dinâmicas poderosas. Hoje, as aldeias são as testemunhas preferenciais para quem quer entender minimamente o que se passa por toda a região. Foram elas que alimentaram os enganadores crescimentos das vilas e, sobretudo, das cidades sedes de concelho no Interior, foram elas que também alimentaram as grandes áreas metropolitanas do litoral e foram elas que se esvaziaram nas grandes vagas da emigração que levaram milhares de homens e mulheres para além dos Pirenéus para fugir à densa pobreza e aos dias amordaçados pela ditadura.

Sabendo de tudo isto, há algo que, hoje, estamos a interiorizar e a valorizar: A memória destes lugares. Não apenas a memória física de castelos, casas e ruas que se ergueram por entre a adversidade, mas da humilde sabedoria que trespassou gerações que da escassez fizeram arte, fizeram espanto. Estamos a ganhar a noção que os velhos saberes são identidade. São diferenciadores. São únicos. Por isso estamos a redescobri-los, a exaltá-los e a promovê-los.

Há, apesar das redundâncias, uma sublime nobreza nisto tudo. A maior e, talvez, a menos evidente, é o reconhecimento daquilo que antes sumariamente se desprezava por ser um anacronismo qualquer vindo “da aldeia”.

Das redes das Aldeias do Xisto e Aldeias Históricas, da mais modesta mostra de artesanato ou de gastronomia na mais remota aldeia daBeira, estamos a celebrar quem nos antecedeu; quem, pelo engenho e pela necessidade, do quase nada, fez quase tudo. Podemos não estar a reabrir escolas, mas a memória e a gratidão serão sempre admiráveis sementes para se lançar pelas nossas aldeias.