InícioOpiniãoÁgua vai, água vem

Água vai, água vem

Nuno Francisco

1 – OS “CUSTOS” da interioridade são, definitivamente, uma chatice para quem cá vive e tem que arcar com eles todos os dias. São os custos da ausência que entram, de rompante, na básica equação da oferta e da procura, levando ao continuado desaparecimento de serviços nestes territórios do Interior, porque a gélida aritmética nos diz que onde não há pessoas não tem que haver serviços porque estes custam dinheiro e não há utilizadores suficientes para os rentabilizar. Esta visão terá que ser aceite quando se trata de investimentos privados, mas já é particularmente grave quando se trata de serviços públicos, porque a ação do Estado tem que ser lida bem para além da mera gestão economicista da oferta e da procura a que qualquer privado tem que se submeter para preservar o seu investimento.

O Estado tem responsabilidades acrescidas, porque é o garante último da subsistência do território como um todo e tem a plena obrigação de se questionar permanentemente porque é que dois terços da população estão acumulados numa estreita faixa do país, estando a maioria do território submetido aos famosos “custos da interioridade”. E depois de descobrir a resposta – o que não é difícil – está obrigado a promover políticas de coesão territorial que mitiguem este incomum desenho demográfico.

A continuada fuga demográfica que nos trouxe até aqui – e que tem explicações alicerçadas no subinvestimento e desinteresse crónico neste território – reconfigurou o país, cavou profundas desigualdades, nomeadamente no acesso a serviços. Na última semana, o Presidente da República promulgou um diploma do Governo que implica o pagamento de uma taxa de 50 cêntimos anuais pelos consumidores para compensar os maiores custos de distribuição de água no Interior do país. Para além das inevitáveis “bocas” de rede social, ninguém, publicamente, contestou as virtudes desta medida de coesão territorial (que deve ser replicada) e que traduz, exemplarmente, aquilo que é a solidariedade territorial. Ninguém, nas suas plenas faculdades, se atreverá a invocar o inenarrável discurso do utilizador-pagador, porque então, aí teríamos mesmo muito para conversar…

2 – As eleições autárquicas estão a promover as conversas do costume em torno de nomes já confirmados ou em vias de confirmação para os diferentes municípios da região. Bem se sabe que primeiro vêm os nomes e depois os supostos projetos. Mas nesta água vai, água vem, era bom que o realismo tomasse conta dos dias e se deixassem para trás alguns egos insuflados mal disfarçados, velhas quimeras gritadas de autocolante na lapela e bandeirinha na mão, que ficam bem nos comícios, mas que se esvaziam quando as luzes sobre o palanque se apagam.

A evidência que deve perpassar todas as candidaturas é a de que quando olharem para nós, saberem que poucos se mostram disponíveis para embarcar em fantasias, discursos redondos e promessas de amanhãs gloriosos ao virar da esquina. A expectativa é simples: capacidade e criatividade na gestão dos escassos recursos que a esmagadora maioria das autarquias têm ao dispor para tantas exigências. E, já agora, se não for demasiado incómodo, que se comecem a entender sobre como lidar com o difícil futuro da região. Isso basta.