InícioOpiniãoAfetos: uma raiz para o futuro do Interior

Afetos: uma raiz para o futuro do Interior

Paulo Duarte

AGOSTO é o mês em que muitos portugueses, patriotas de alma e coração, regressam à pátria para (re)viver outras vidas, algumas passadas. Este é, pois, também, o momento indicado para, neste jornal, genuína voz de Portugal no ser e no sentir, refletir sobre a emigração e o seu impacto no futuro deste território que a todos acolhe. Um futuro que se precipita sobre nós a uma velocidade tão vertiginosa que quando dele tomarmos consciência já é presente.

Agosto é também o mês das genuínas festas de verão, essas manifestações culturais populares que ocorrem um pouco por todo o país e que são o ponto de encontro fraterno de pessoas e a expressão das nossas raízes. Um bálsamo para a alma a que muitos recorrem ano após ano para suavizar a dor da ausência no regaço da pátria.

Esta é uma crónica sobre a pátria. Não a pátria aldeia (“pagus”), território ou geografia, mas a pátria humana, feita de pessoas, de valores, de história e especialmente de vínculos afetivos. Uma pátria de afetos feita de saudade, essa dor sem fim que a prazo se dilui na ausência daqueles que amamos e dos que sempre nos amaram. É precisamente com a morte dos laços afetivos que nos devemos preocupar, principalmente nas regiões do interior de onde muitos partiram e partem. É necessário refletir no que vai ser do seu património – terras e casas – que eles ainda cá mantêm, quando os nós irreparavelmente se desatarem. Algo que inevitavelmente vai acontecer, pois se para os mais velhos Portugal permanece a pátria, para os mais novos é apenas um país distante, com hábitos e costumes diferentes, por vezes até bizarros.

Qual será então a motivação para as longas viagens?

Não serão as terras descuidadas, entregues à voracidade do mato e à mercê do fogo. Tão pouco as portas e janelas fechadas onde noutros tempos os aguardavam sorrisos cintilantes, abraços ternos e lágrimas, muitas lágrimas de alegria. Muito menos os imóveis, outrora limpos e arejados, perfumados com o carinho das camas imaculadamente preparadas com lençóis frescos, em cujas cozinhas os tachos fogosos transpiravam para o ar aromas saturados de lembranças dos miminhos gastronómicos de outras idades, as de ouro. Esses imóveis estarão então bafientos, bolorentos na sua condição de abandono e não serão mais um motivo que justifique regressar. Pelo contrário, estes serão um motivo para partir e não mais querer voltar para não encarar a violenta realidade de ver estes templos outrora repletos de alegria, de satisfação e amor, convertidos na mais impiedosa evidência das perdas que vamos acumulando ao longo da vida. Perdas que não esquecemos, mas cujo sofrimento preferimos reprimir ou simplesmente evitar.
Este é mais um motivo pelo qual corremos o sério risco de ver aldeias e vilas, hoje demograficamente empobrecidas, transformarem-se em cemitérios de imóveis e terrenos férteis, votados ao abandono pela ausência de valor afetivo e, como tal, desprovidos igualmente de valor monetário. Uma condição na qual serão alvos fáceis para o vandalismo e a destruição artificial e, posteriormente, candidatos perfeitos a agonizar naturalmente às mãos das plantas, as únicas que ainda lhe encontrarão algum valor.

É vital estimular o cultivo de novas raízes de afeto, as únicas com força suficiente para manter afastado o abandono, a decadência e em última estância a ruína e a destruição. Caso contrário chegará o dia em que também nós, enquanto pátria, morreremos, porque na equação do patriotismo o valor não está nos bens físicos, mas sim nos afetos e sentimentos que a eles nos unem.

Para isso há que, sem demora, definir estratégias e implementar ações concretas alinhadas com as estratégias regionais e as premissas e tendências atuais da sociedade, nomeadamente na esfera da economia da partilha, que visem a preservação das propriedades agrícolas e do património urbano das aldeias de forma a torna-las economicamente, socialmente e afetivamente atrativas e sustentáveis.

pduarte@gmail.com