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A fatalidade

Nuno Francisco

Já se aguardava o que para aí vinha: uma torrente de opiniões sobre o que correu mal no incêndio de Pedrógão Grande: desde o Siresp que terá falhado novamente em situação de catástrofe, porque apesar de ser uma rede de comunicações que terá precisamente a função de funcionar em situações exigentes, parece que os extraordinários 600 milhões de euros que custou aos contribuintes não será garantia de coisa nenhuma; depois serão os eucaliptos plantados tão descontroladamente que as florestas incorrem numa nova tipologia de riscos; depois ainda as mesmas florestas (ou o que resta delas) que não são limpas, que a lei não é cumprida… etc.

Felizmente, tem-se ouvido algumas variações ao tradicional e enfadonho receituário que se mete na gaveta quando chega o outono: já há quem exija que se acabe com a conversa de sempre e se dê lugar, de vez, à ação.

Andamos há décadas com a trova do diagnóstico, enquanto o país arde. Primeiro, porque os diagnósticos e as boas intenções são infinitamente mais baratos do que a ação no terreno, o local próprio para se impor, doa a quem doer, uma real vontade de alterar a realidade, enfrentando interesses e começando a colocar um ponto final nesta tragédia nacional com hora marcada.

Depois, continuamos há décadas com a mesma conversa e boas intenções porque muitos se têm esquecido recorrentemente de um certo Portugal que passa, com raras exceções, dez meses por ano no anonimato e que muitos só dão por ele no verão quando os gritos e as lágrimas invadem as televisões enquanto aquelas pessoas distantes tentam salvar-se a si e ao pouco que amealharam durante a vida. É esse Portugal que poucos compreendem, esse Portugal invisível, que está entregue a um destino que não escolheu, nem sequer ajudou a construir.

Num esclarecidíssimo texto, publicado na edição de terça-feira do Público, o juiz desembargador António Neto descreveu estes como os “refugiados do progresso”, que foram “forçados a prolongar o seu modus vivendi por o país urbano os ter relegado à sua sorte”. À sua infeliz sorte, construída pedra sobre pedra, até aqui, ao ponto de não retorno, até ao momento em que se já todos nos apercebemos que as palavras se extinguem muito mais depressa que o fogo.

Não é relevante estar a sublinhar aquilo que os especialistas em floresta e em proteção civil têm dito sobre o estado da arte; tanto que já se fez lugar comum. O que é realmente triste é olhar para este território em que vivemos – que não nos chega pelos ecrãs da televisão – e assistir, chegado o verão, ao permanente desfile de carros de bombeiros rumo a colunas de fumo no horizonte.

O que é triste é a tentação de já se olhar para tudo isto como uma fatalidade; o encolher dos ombros de que arde porque tem que arder. Não, não tem. Arde e arde tanto por alguma razão e não por vontade divina ou por um indecifrável haraquiri “da floresta” que se ateia a si própria com propósitos purificadores. O que é triste é achar que tudo isto é normal. Tal como sempre se achou normal que neste Interior que arde não viva quase ninguém, que neste Interior que arde se fechem escolas e tribunais e se extingam freguesias. Triste é alimentar esta indiferença cuja origem se perde no tempo, como sendo uma fatalidade. Mais uma entre tantas…