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A avó tecedeira

Maria Antonieta Garcia

“SEMEEI no meu quintal
O brio das tecedeiras; Nasceu-me uma rosa branca, Cercada de lançadeiras.”

A Avó, nascida em meados do século XIX, era tecedeira. Mulher forte, fogosa revelara-se um génio no artesanato dos fios. Pegava em ourelos enovelados, e nasciam-lhe das mãos as mantas de restos de trapos, coloridas, ou brancas, ou escurinhas… Um ou outro apontamento aplicado no centro, outros nas bordas, a rematar, a combinação de cores, os matizes, diziam a criatividade da artista mais escolhida nas redondezas para tecer agasalhos para as noites frias de Inverno.

Quando ainda novas, serviam de cobertores ou colchas; aconchegavam nas camas de colchões de folhelho, ou palha. Já esgaçadas transfiguravam-se em tapetes, passadeiras, panos para apanhar azeitonas, para debaixo das toalhas de merendas, no campo… e o mais que o siso decidisse. Até houve quem se lembrasse de fazer chinelos para descansar os pés…

Ai, as horas perdidas a cortar, em tiras, os tecidos já com história! Cosiam-se as fitas umas às outras; restos de vestidos, camisolas gastas, lençóis rasgados, toalhas a desfiarem-se… transformavam-se em bolas enormes e levavam-nas à avó. Nenhuma manta era igual à outra. As mais comuns eram as riscadas. Opinava:
– Esse tom não fica bem, aí! Entristece muito!
– Olha! Para a cama da menina, pomos as cores mais clarinhas.

A avó era tecedeira, uma aranha no tear a dar vida a qualquer fio. Cada um contava uma história que só ela conhecia… Se havia tempo, compunha estrelas e cravos, papoilas, corações e pássaros com a maior ciência de mulher: os afetos. Tecedeira de palavras relatava infindas narrativas que cresciam à imagem das mantas que tecia. Falavam de viagens enredadas com as alegrias e tristezas, com a alma que sabia das suas gentes. Recordava episódios cerzindo farrapos de luz. Às vezes, articulava uma reza, salmodiava um lamento. Olhava de soslaio a tropa-fandanga dos maldizentes, venenosos, invejosos. Mas divertia-se com as espreitadelas /desafios de ganapos traquinas, à espera da cesta, com um mimo qualquer, esquecida no degrau da porta. Gostavam dela.
– Ó tia Antónia! Hoje não há nada?

Não foi Ariadne que nunca se gabou de tecer melhor do que os deuses. Não enfrentou Atena disfarçada de anciã. Seria vencida. Afrontar a tradição? Sabia de cor e salteado a sua condição de mulher. Ainda assim cumpriu o destino; foi condenada a tecer para sempre. Herdou o feitiço da aranha-que-aprendeu no corpo cansado de trabalho. Tecedeira de nuvens e de sonhos foi Filomela em versão diferente. Conta a história que Teseu a violou. Cortou-lhe, depois, a língua para não ser denunciado. Foi numa tapeçaria que a jovem revelou o delito. Sófocles chamou-lhe a “voz da lançadeira”. Pelas mãos de Filomela, a “voz” não ficou reduzida ao silêncio como o agressor pretendia. Venceu a mulher fiandeira de fios e de vidas. A avó tecedeira não temia o tear. Foi um amor proibido, calado durante anos, que lhe afinou o bom gosto para as mantas e colchas lá de casa? Fiava-as e tecia-as para as netas, com tons de duas ou três cores.

Sabemos pouco da sua vida. Mas o nome está inscrito nas memórias da terra beirã onde nasceu e nos livros de Assentos de Nascimento, Casamento e Óbito. Duas vezes casou. Na Igreja. O segundo amor comentado por infelizes, ressabiados de tamanha paixão, foi mais forte do que o pavor de causar má impressão na aldeia. As mantas alegraram-se. Jogava a inventar histórias com ele: ela começava, ele retomava o fio à narrativa… E as romãs, as cerejas, flutuavam num cenário de vida simples.

O caleidoscópio de enredos era infinito. Como a união entre os dois. A Fortuna não deixa durar muito tal felicidade. De repente, viu-se viúva, muito viúva. Um ricto amargo desenhou-se-lhe na face. Cresceu-lhe tão desmedidamente a dor que, desde então, teceu com a voz embargada para sempre viagens de reencontro. Deitou-se ao tear, furiosamente. Perdia-se, por querer, em florestas de palavras a semearem saudade. Seguiu o modelo de Penélope a tecedeira de esperas.
Um dia criou uma colcha a que chamou “Verdade”. A um canto estava uma mulher feia, muito feia.
– A Verdade é essa mulher?
A colcha passou de geração em geração. Ainda a toquei. Foi então que percebi (ensinou-me Miguel Torga) que a avó sobreviveu porque ouvia: No mar da vida, / Digo o teu nome e encho a solidão. / Mas pergunto depois ao coração / Por quanto tempo poderás ainda / Tecer e destecer a teia da saudade… / (…) Sê tu divina, de verdade, aí,/ Nessa ilha de esperança /.