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3 Mar 2010,
15:09h
Hospital de Castelo Branco tem a única resposta à diabetes do Interior
Unidade de Diabetes do Hospital Amato Lusitano não tem mãos a medir face à falta de resposta dos cuidados primários para acompanhar os doentes. Responsáveis anunciam um plano de formação a profissionais dos Centros de Saúde
VIVER com a Diabetes não é fácil, mas torna-se mais simples se o doente estiver esclarecido e seguir as recomendações de controlo dos seus níveis.
A Diabetes é uma situação muito frequente na nossa sociedade e a sua frequência aumenta muito com a idade. É por isso também no Interior que se sente falta de estruturas de apoio a muitos dos diabéticos, doentes que necessariamente têm de ser acompanhados. A excepção vai para o Hospital Amato Lusitano que tem desde 2004 a funcionar uma Unidade de Diabetes, que regista um aumento de afluência ás consultas na ordem dos 10 por cento.
As consultas prestadas envolvem várias vertentes, desde a Diabetologia, Cirurgia, C. Pé, Cardiologia, Aconselhamento dietético, Psicologia ou Podologia. De 2004 a 2009 passou-se de 1336 para 2788 consultas, respectivamente, correspondendo a um aumento de 10.8 por cento. Relativamente ao ano de 2008 (em relação 2004) houve um aumento 14.97 por cento. A faixa etária mais prevalente encontra-se entre os 45 e os 65 anos para a consulta de diabetologia; enquanto na consulta do pé/diabetes a faixa etária é entre os 65 e os 75 anos, predominando nesta última o sexo masculino.
Quanto às sessões do Hospital de Dia passou-se de 703 sessões de 38 doentes em 2004 para 1406 sessões de 76 doentes, mantendo rácio de 18 sessões/doente.
A actividade da Unidade de Diabetes tem sido centrada na pessoa com diabetes e nos seus familiares ou cuidadores. A mensagem assenta numa Educação Terapêutica, fornecendo competências ao diabético para que este possa ser um gestor competente e privilegiado da sua própria condição, o principal envolvido e interessado no seu bem-estar, particularmente, na sua diabetes, mas também na hipertensão, dislipidémia, excesso de peso/obesidade, sedentarismo/actividade física, tabaco ou álcool. ”Nunca esquecemos que a pessoa com diabetes tem a sua envolvência psicossocial, familiar, profissional, religiosa e económica, que tem crenças e mitos e que procura em nós a competência profissional, o apoio incondicional e o estímulo para o motivar na sua condição como Homem. Estes objectivos não fazem parte da estatística puramente matemática mas fazem-nos sentir que tem valido a pena”, refere Rosa Silva, médica a quem coube a tarefa de criar a Unidade de Diabetes no hospital e a quem cabe a sua coordenação. É o único serviço do género do interior do país (existe uma Unidade de Diabetes em Viseu). A responsável admite que possa atender doentes de outras zonas que não a da área geográfica do HAL. “Interessa-me apenas que se eu tratar aquele doente em causa e evitar que tenha um determinado evento, como um acidente cardiovascular, estou a fazer um bom serviço à comunidade”, sublinha. O objectivo da Unidade passaria por seguir por algumas consultas os seus doentes mas que depois estes pudessem ser “libertados” para os cuidados primários, o que na maior parte dos casos não acontece. “O número de doentes tem aumentado, mais tivessemos porta aberta, mais doentes veríamos. O problema é que o Sistema Nacional de Saúde está invertido, porque os cuidados secundários (hospitais) só deveria ver os doentes crónicos uma ou duas vezes”. Acontece é que, por diversos problemas, o diabético acaba por ficar mais tempo retido na consulta hospitalar e a necessária mobilidade de utentes na Unidade acaba por não se efectuar. “No estrangeiro vemos muitas primeiras consultas nos hospitais e poucas segundas, porque o doente entra uma vez, faz tudo naquela consulta e depois é reenviado para os cuidados primários para ser seguido”, sublinha Rosa Silva, que todavia, perante a vontade do utente, opta por segui-lo. “Deveria haver uma melhor articulação entre os cuidados primários e secundários de forma a seguir estes doentes para que tenham mais cuidado com a sua saúde. Os doentes optam muitas vezes por não regressar aos cuidados primários, porque sabe que no hospital o médico está lá”, explica, mas lembra: “A unidade tem cerca de cinco por cento de responsabilidade sobre o doente, o restante é controlado por ele”.
Estima-se que cinco mil habitantes desconheçam que são diabéticos
A UNIDADE Local de Saúde (ULS) de Castelo Branco abrange uma população de cerca de 116 mil pessoas. Segundo o estudo de prevalência de Diabetes em Portugal, realizada em 2009, cerca de 11,7 por cento da população portuguesa é diabética, “o que significa que a população diabética previsível na nossa área de influência é de 13.500 pessoas”, aponta Jorge Monteiro, responsável pela área da Diabetes no Agrupamento de Centros de Saúde da Beira Interior Sul. O número de utentes por cada médico de família é no mínimo de 1500 pessoas,
“o que indica que exista uma população afectada de diabetes é de mais de 150 pessoas por ficheiro médico”, completa o clínico.
Segundo o mesmo estudo de Prevalência de Diabetes, realizado com o patrocínio da Sociedade Portuguesa de Diabetologia e passível de consulta no portal da Direcção Geral de Saúde, em cada 10 diabéticos, quatro não estão diagnosticados. “Estima-se, na população do distrito, que aproximadamente de cinco mil pessoas desconhecem ser diabéticas”
Os números inicialmente citados são válidos para pessoas com diabetes já declarada, pois se nos referirmos a estádios de pré-diabetes, ou seja, pessoas com tendência para a doença o seu número será muito maior, pois o estudo aponta para que um terço da população tenha diabetes ou pré-diabetes, isto é, 35 mil pessoas como alvo potencial de acções preventivas.
Joaquim Pires perdeu 30 quilos
JOAQUIM Pires, sem antecedentes de diabetes na família era uma pessoa saudável.
Proprietário de um restaurante em Castelo Branco, comia tudo o que apetecia, “a sandes com presunto, manteiga ou de queijo”, diz.
Os principais sinais surgiram há meia dúzia de anos com fortes dores de cabeça e a doença foi confirmada com os exames. Procurou a Unidade de Diabetes para ser acompanhado e melhor esclarecido sobre o controlo a ter e hábitos de vida.
A sua medicação baseia-se sobretudo em comprimidos e agora não passa um dia sem fazer uma caminhada de hora a hora e meia.
“Perdi desde Agosto uns 30 quilos e controlei os níveis porque alterei os meus hábitos”, conta-nos.
As saborosas sandes acabaram e foram substituidas por saladas, bolinhas de pão ou hortaliça.
“A Unidade de Diabetes é uma grande ajuda. A equipa é excelente. Ficam radiantes com os resultados dos meus níveis e isso dá-nos um grande incentivo”, disse ao JF Joaquim Pires.
Amor pelo atletismo passou a ser levada mais a sério
JOÃO Cabaço já gostava do atletismo. A descoberta que tinha diabetes e a necessidade de praticar exercício fisíco fê-lo dedicar-se mais à actividade, de tal forma que conta já com vários prémios.
Nas três maratonas (de 42 quilómetros) em que participou concluíu com tempos entre as 3 e 30 e 4 e 10 horas. Marcou ainda presença em duas dezenas de meias-maratonas (21 quilómetros). “Tenho contado com o apoio, incentivo e conselhos sempre preciosos da doutora Rosa Silva e da equipa da Unidade de Diabetes do HAL”, explica ao JF.
João Cabaço é insulino dependente. A sua condição de diabético, obriga-o a cuidados redobrados na alimentação, na necessidade de verificar os níveis de glicémia ao longo do dia.
“A vida altera-se, necessariamente, mas depois vivemos com estas obrigações como um hábito”, conta. Não há provas de atletismo na cidade em que nao participe, desloca-se para o trabalho a pé e anda sempre com um pacote de bolachas e de açúcar no bolso.
José Manuel Boavida, Coordenador da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal
“Número de diabéticos não tem nenhuma tendência a diminuir”
Que tipo de apoios têm os diabéticos fora da área geográfica deste hospital (Guarda, da Covilhã ou Portalegre)?
Por todo o país tem-se vindo a criar consultas multidisciplinares com médicos, enfermeiros educadores e com competências em diabetes, como equipa base que poderá integrar dietistas/nutricionistas, podologistas e outros profissionais sempre que possível. Estas consultas serão a estrutura que permitirá prestar cuidados integrados e educacionais e que se deverão desenvolver por todo o país. Este desenvolvimento pode ser desigual mas é o caminho que é necessário percorrer.
Que tipo de mudanças podem implementar os cuidados primários para acompanhar de mais perto estes doentes?
Em primeiro lugar criar as consultas de diabetes para acompanhar as pessoas com diabetes, com a sua colaboração activa, procurando implementar as boas práticas reconhecidas por todos, que permitirão evitar as complicações da diabetes e permitindo que estas pessoas se mantenham cidadãos activos e com uma boa qualidade de vida. Em segundo lugar poderão desenvolver uma pesquisa activa de diagnóstico precoce das complicações da diabetes: das lesões dos olhos, dos pés, dos rins e do coração. Obviamente que este trabalho terá que ser articulados com os hospitais para sempre que seja necessário proceder a tratamentos específico a acessibilidade esteja assegurada.
Que avaliação faz da evolução da doença nos últimos anos e quanto ao futuro no Interior do país?
Se há vinte anos alguém dissesse que teríamos hoje em Portugal quase 12 por cento da população entre os 20 e os 70 anos com diabetes, ninguém o acreditaria. Mas essa é a realidade em que vivemos. E estes números não têm nenhuma tendência a diminuir. A urbanização das populações, com cidades organizadas em torno da deslocação em automóveis, a organização do trabalho, com recurso cada vez menor à actividade física e a horários cada vez mais alargados, são alguns dos factores que não nos permitem ser optimistas. E Interior do País não está imune a esta situação, com uma situação agravante: o envelhecimento das populações. A necessidade de reagir em relação a esta situação é igual por todo o país, tendo sempre em consideração as várias particularidades. As doenças crónicas representam o grande desafio do século XXI. Elas são consequência do aumento da esperança de vida das populações e da sociedade que construímos. A resposta a este desafio terá que passar pela reflexão profunda sobre as boas experiências e as politicas mais adequadas. E esta reflexão não é só da área da saúde. As autarquias, as escolas, os sindicatos, os políticos, os doentes e todos os cidadãos têm que participar activamente nesta reflexão. Não conhecemos todas as soluções, teremos que as construir.
Por:
Célia Domingues
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