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22 Fev 2010,
17:57h Contra-Corrente
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| Foto de Leonel de Castro (JN) |
Os mortos da Madeira
Anestesiados pela narrativa cruel da informação, que todos os dias dilata grandes-planos de guerras, de genocídios, de áfricas de torturas ou de fomes, de dramas sociais colectivos, de desigualdades que são abismos de desumanidade, ainda temos espaço no coração para um arrepio de perplexidade ou algumas lágrimas furtivas para a calamidade que se abateu sobre a Região Autónoma da Madeira. O dilúvio madeirense comoveu o país. As imagens repetidas das enxurradas, o lento inventário dos mortos, a desgraça avassaladora de quotidianos de pobreza (os mais desprotegidos e socialmente frágeis são sempre as maiores vítimas) dão decerto uma ideia da tragédia, mas estão longe de fornecer a dimensão colectiva do drama e a extensão psicológica das dores dos que viveram por dentro o inferno da chuva diluviana, que feriu a cidade do Funchal e outras comunidades da periferia.
No caso das catástrofes naturais, como esta, há sempre ensinamentos a retirar. Num país como o nosso, em que o Ordenamento do Território está longe de ser uma sensibilidade política geral, gostamos mais de remediar que prevenir. Por todo o lado, e na Madeira também, um surto urbanizador excessivo, a ausência de planeamento mínimo, a indiferença face ao património natural (incêndios, desflorestação, caminho livro à erosão, impermeabilização dos solos) tem sempre custos físicos e humanos acrescidos. Em certo sentido, a Natureza tem sempre razão. E responde com violência à irracionalidade dos homens.
É bom repensar a realidade. Olhemos para a tragédia da Madeira com carácter preventivo de urgência. Os mortos não perdoariam que o seu sacrifício servisse apenas para lágrimas de circunstância e tudo viesse a ficar quase na mesma. No seu silêncio, os mortos da Madeira são uma acusação contra muitas omissões e indiferenças. Contra o desordenamento territorial que contamina a vida e a morte. No seu silêncio, de certo modo eles estão a olhar para nós todos.
Fernando Paulouro Neves
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