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4 Nov,
15:25h
Quando Luandino Vieira era proibido...
Há 44 anos, Luandino Vieira era um nome proscrito pelo salazarismo, cuja simples citação podia constituir delito de opinião. O JF publicou a notícia do prémio atribuído a Luuanda. Foi imediatamente suspenso
PASSARAM quarenta e quatro anos e aos leitores mais jovens de hoje tudo pode parecer uma irrealidade, uma daquelas histórias absurdas que só cabem na dimensão larga da imaginação. E, no entanto, em 1965, só a simples notícia da atribuição de um prémio literário a José Luandino Vieira desencadeou uma das mais violentas ondas de repressão do salazarismo.
Nesses dias cinzentos de Maio de há mais de quatro décadas, a Sociedade Portuguesa de Escritores foi assaltada e depois encerrada pela PIDE, o “Jornal do Fundão” foi suspenso por cinco meses e depois submetido a censura especial, em Lisboa, escritores foram presos. Motivo: o prémio atribuído a Luandino Vieira pelo livro Luuanda.
O “Jornal do Fundão” publicou na edição de 23 de Maio de 1965, no Suplemento Literário Argumentos, dirigido por Alexandre Pinheiro Torres, a notícia dos Prémios da Sociedade Portuguesa de Escritores. Tinham sido distinguidos: Isabel da Nóbrega pelo romance Viver com os Outros (Prémio Camilo Castelo Branco – Romance); Luandino Vieira por Luuanda (Grande Prémio da Novela) e Armando Castro com A Evolução Económica de Portugal (Grande Prémio do Ensaio).
A propósito do prémio atribuído “ao escritor angolano Luandino Vieira”, a notícia do JF informava que do júri tinham feito parte João Gaspar Simões, Augusto Abelaira, Alexandre Pi-nheiro Torres, Manuel da Fonseca e Fernanda Botelho, e dizia depois sobre o autor premiado: “Luandino Vieira, que conta apenas 29 anos, nasceu em Vila Nova de Ourém, na Metrópole, tendo ido bastante novo para Angola. Começou a sua actividade literária em O Estudante, órgão dos alunos do Liceu de Luanda. De 1957 a 1960 apareceu integrado numa camada de novos escritores angolanos que elaboraram “CULTURA”, jornal literário da Sociedade Cultural de Angola. Aí se encontram poemas, contos, ilustrações com a sua assinatura. Em 1960 publica o seu livro de estreia A Cidade e a Infância, tendo publicado depois Duas Histórias de Pequenos Burgueses (1961) e Luuanda (1964), que lhe valeu agora o Grande Prémio.
Aquando da aparição do livro, o organizador desta página [Alexandre Pinheiro Torres] pronunciou-se no “Diário de Lisboa” da seguinte maneira: “Três histórias que são (...) três obras-primas do nosso conto contemporâneo, e a enorme e imprevista revelação de um escritor de sensibilidade excepcional e de notável capacidade de criação dum estilo... É n’A Estória do Ladrão e do Papagaio, que desde já considero digna de figurar sem desdouro ao lado das melhores de José Cardoso Pires de Jogos de Azar, ou das melhores de Manuel da Fonseca de O Fogo e as Cinzas (e que maior elogio poderia eu fazer-lhe?), é nessa “estória” que Luandino Vieira nos dá prova das suas extraordinárias possibilidades”.
Perguntará o leitor:
– E então?
Então, o que fizera enfurecer Salazar, a fúria desencadeada contra a atribuição do Prémio a Luandino Vieira, radicava na acção cívica e política do autor, que lhe valera a prisão e, na propaganda fascista, a classificação de “terrorista”.
Luandino Vieira, tão ligado aos círculos culturais de Angola, depressa sofreu a condição de preso político pela participação no movimento de libertação de Angola. Foi preso pela primeira vez em 1959. Voltou a ser detido em 1961 e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Em 1964 enviado para o campo de concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, escrita, em grande parte, nas diversas prisões por onde passou.
Quando a Sociedade Portuguesa de Escritores lhe atribuiu o Grande Prémio de Novelística, o escritor encontra-se em longa prisão no Tarrafal. Essa circunstância (a sua ligação ao MPLA) determinou a campanha repressiva do regime, então a braços com uma guerra colonial que, muito mais tarde, haveria de ser causa próxima da sua destruição.
Em 1965, falar em Luandino Vieira era delito de opinião. O “Jornal do Fundão” sofreu bem essa condenação, desde a suspensão ao regime especial de censura.
A verdade, porém, é que as três narrativas de Luuanda eram “três obras-primas”.
A escrita de Luandino Vieira tinha consigo o futuro. Não só para a afirmação de uma literatura angolana, mas para o enriquecimento da língua portuguesa.
À distância do tempo, Luuanda tem a frescura de uma linguagem inovadora, a música de uma oralidade tão próxima do universo africano, uma dimensão poética que faz dos contos de Luandino Vieira uma aventura de leitura estimulante.
A obra posterior só veio confirmar o grande escritor. Sempre a condição humana no seu húmus, a batalha pela liberdade e pelo pão elementar, num compromisso que é sempre, por mais voltas que dêem, o essencial da acção criadora.
Luandino Vieira está hoje, dia 5 de Novembro, em Castelo Branco. É um grande acontecimento cultural.
Fernando Paulouro Neves
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